Glass ★★★★

Um dos temas principais de "Vidro" é o quanto a imaginação pode contaminar a realidade. E vice-versa. Num mundo cada vez mais cético, não há mais muito espaço para este debate, mas M. Night Shyamalan se recusa a fazer um cinema com os pés no chão. Seus filmes sobem pelas paredes e o que este aqui faz de melhor é explicar e defender a fantasia como puxadinho do mundo real. Existe uma cena-chave deste filme que discute este assunto e onde as certezas dos protagonistas, e as nossas, são postas em cheque. O texto, proferido com calma e tranquilidade por Sarah Paulson, denuncia um artista muito mais em paz com suas escolhas, sabendo que não precisa mais atacar opinões contrárias com um personagem amargurado, que parece falar sobre os limites entre esses dois conceitos de ficção e de cinema -- o sério e o de fantasia, o que analisa o mundo e o que o entretém, o de adulto e o de criança -- sem querer delimitá-los, mas mostrando que é possível argumentar sobre o intervalo entre eles. Em alguns momentos, "Vidro" é literal demais na costura de sua mitologia particular com a lógica, a estrutura e os rituais de uma história em quadrinhos, mas o que Shyamalan, um diretor de altos e baixos, faz aqui é buscar a maneira mais sincera (e apaixonada) de explicar e defender para alguém uma coisa em que se acredita muito. Não uma verdade pessoal, mas um estado de espírito.