Ganga Bruta

Ganga Bruta ★★★★

Este texto é o primeiro de uma série de transcrições que estaremos publicando no Videodrome como resgate histórico do pensamento teórico e artesanal de algumas grandes figuras do Cinema Brasileiro. A série também é parte do material base para o curso online Constelações do Cinema Brasileiro (1898-1992), cujo programa completo pode ser lido neste link.

CINEMA FALADO NO BRASIL

(Humberto MAURO escreveu e leu para o mycrophone da Radio Educadora do Brasil)

Passarei a dizer alguma coisa sobre o Cinema falado no Brasil. Não vou discutir o Cinema falado. Não gosto da fala nos Films aos quaes se póde applicar toda a technica do verdadeiro Cinema. A maneira de se fazer sentir e comprehender um Film pela technica classica do chamado Cinema puro, é o subentendimento. Atravéz a linguagem do cinema silencioso, as manifestações mais sinceras da arte e do artista se revelam com a mesma força de persuasão e convencimento de que são capazes as demais artes, tidas como classicas. Baseando a sua forma de expressão no subentendimento, isto é, não na descripção em si, mas naquillo que ella suggere, e evolucionando dentro desse systema que decorre da sua propria essencia e natureza, o Cinema elevou ao maximo grau uma qualidade existente em toda expressão de arte, e caracterizou por esse modo, para todo o sempre, o seu estylo e feições funtamentaes. Existe, portanto, uma arte Cinematographica essencial, uma technica basica de Cinema, um conjuncto de leis insubstituiveis, sobre as quaes se ergue toda a estrutura do edificio estetico até aqui conhecido por Cinema silencioso, que não é outro sinão o Cinema classico.

O Cinema sonoro veiu transmitir os ruidos. O Cinema falado trasladou a linguagem humana falada para a tela, lançando mão, para isto, da synchronização. No emtanto, demonstrando maior poder sintetico de expressão, o Cinema silencioso, nos fazia ouvir tudo aquillo que hoje se expressa com maior facilidade pela concorrencia do ruido e da palavra. Parecerá exaggero mas não o é, porquanto trata-se de um facto constatado por todos nós, este, de um Film silencioso nos satisfazer inteiramente até o final da sua exhibição: não se reclamava a fala e o som para que se tivesse uma satisfação completa. Todos os ruidos e sons que hoje nos ferem os ouvidos, nós supunhamos escutal-os em consequencia do tumulto subjectivo que nos causava a suggestão irresistivel do Cinema silencioso; a nossa imaginação trabalhava muito mais e isto em virtude de uma vibração nervosa muito mais forte, tanto assim que se satisfazia com aquillo que ella julgava existir. D. W. Griffith chama a isto com insuperavel propriedade, “força hipnotica da tela.” De facto é hipnotismo verdadeiro. Jamais me esquecerei dos ruidos mechanicos, das lamentações, dos gritos e do cascatear do Neagara, no Film "A Turba", de King Vidor.

Não ponho duvida em afirmar que o melhor Cinema é o silencioso, mas aquelle, é claro, que não claudica nas suas regras fundamentaes. A perfeita idealização do Cinema será o Cinema puro, extreme de qualquer aberração subsidiaria, incapaz para a industria, é evidente, mas o unico que poderia satisfazer o Cineasta fervoroso, possuidor de uma cultura Cinematographica perfeita; assistir a um Film de technica pura, commodamente repoltreado em macios estôfos, num ambiente de atmosfera temperada, sem a perturbação do menor rumor, longe de qualquer outra preoccupação de espirito, com o trabalho cerebral todo entregue na dedução e goso do que se projecta na tela, seria o requinte do prazer artistico, inaccessivel aos Cineastas de muitas idéias e pouco dinheiro, paraiso aberto sómente aquelles cujos privilegios os fizeram principes da Cinematographia.

Não temos ainda um meio que comporte tamanho refinamento. A patria do Cinema e que muitos erroneamente querem tomar por modelo em tudo e por tudo, é credora do mundo inteiro; quando não tem elementos proprios para conseguir a arte que só o preparo dos seculos, atravéz as gerações, realiza, ella os compra a peso de dollars.

Como, então, conseguir entre nós aquillo que nem importar se póde?

O Cinema russo, que traz uma seiva nova e original, é inadaptável, tal qual é, ao meio brasileiro, onde a singeleza dos problemas sociaes andam a muita distancia da complexidade tragica dos sentimentos do povo moscovita.

O cinema entre nós terá que nascer do meio brasileiro, com todos os seus defeitos, qualidades e ridiculos, com a marcha precaria e contingente de todas as industrias que florescem traduzindo as necessidades reaes do ambiente em que se fórma. Se o Cinema americano já nos habituou ao luxo e à variedade de suas producções, estamos certos de que ainda não nos roubou o enthusiasmo natural que teremos por tudo aquillo que seja uma representação fiel do que somos e desejamos ser. O Cinema brasileiro, para vencer, não necessita caminhar pari-passu com o Cinema americano, que isso seria uma tentativa vã; necessita exclusivamente de propriedade. O luxo nababesco das pelliculas americanas, e exaggero “yankee” das suas montagens, o excessivo conforto material que ali se vê, que de tanto se requintar já nos parece afectado e prejudicial aos dramas que ornam, nada disto é indispensável que o Cinema brasileiro alcance desde já, sob o argumento de estarmos habituados a vêl-o, mas é indispensavel sim e até essencial, que o nosso Film saiba traduzir a nossa civilização, o nosso progresso no pé em que está, o nosso conforto como o temos e utilizamos, as nossas aspirações no periodo de vida historica e economica que atravessamos, o nosso caracter e nosso ambiente social, emfim. Nada precisamos tirar ao Film americano que não seja a technica do Cinema, os elementos de expressão, os instrumentos e a maneira de usal-os com efficiencia, pois que foi na Norte America que elles surgiram e se desenvolveram.

Não temos, portanto, publico para um Cinema puro. Este só estará ao alcance dos diletanti, aquelles que, para satisfazerem a estesia propria, o seu goso esthetico, enriquecem a galeria das obras raras de museu com a confecção de Films sumamente artisticos, improprios às grandes industrias e indesejaveis às bilheterias.

O senso pragmatico do norte-americano desde logo lhe ditou esta severa restricção. Lá, tambem são raros os Films de arte pura. Quando algum director de scena obstina-se em fazêl-os, arrisca o seu contracto. E é muito claro tudo isto, si a arte não fosse uma compensação às necessidades humanas, si não traduzisse uma utilidade, uma derivação benefica às aprehensões de espirito e à insatisfação do homem social, nada haveria que viesse restringir as manifestações exclusivas da arte. Não sendo assim, porém, precisamos attender antes a uma quasi totalidade do que a uma minoria; é nisto que se baseia a industria do Cinema ou de qualquer outra arte. A industria neste caso tem a sua razão de ser e, participa do ideal.

***

Aqui se emquadra a necessidade crescente do Cinema falado. Sendo eu um apreciador incondicional do Cinema silencioso e amando-o no que de mais puro elle possa offerecer, não posso deixar de reconhecer que a fala no Cinema veiu crear uma nova ordem de exigencias no campo da Cinematographia. O “tauking” aberra bastante do verdadeiro Cinema. Bem que podemos classifical-o de uma outra manifestação scenica de arte. Veiu tirar muito do subentendimento de que sempre viveu o Cinema silencioso. Comtudo não fugiu inteiramente a elle, tendo sido feito até, algumas vezes, uma habilidosa coinscidencia das duas qualidades: o subentendimento e a fala.

Não podemos negar que já se aprecia bastante o Cinema falado e tambem que a quasi totalidade da platéa brasileira não entende patavina dos seus dialogos. É um contraste interessante e que todos nós já tivemos opportunidade de observar. Muitas vezes a movimentação das scenas é rapida e variada e, no emtanto, faltando a sinchronização, é isto motivo de forte desagrado para a platéa.

O Cinema falado, portanto, agrada só pelo facto de ouvirmos a voz humana e a dos outros animaes, de onomatopéa bem feitas, de ruidos e sons bem combinados. Parece que o encanto resulta de uma sonorização bem estudada e, consequentemente, bem applicada e distribuida em todo o Film. Porque tudo o mais continúa a ser Cinema antigo, isto é, enredos opportunos, excellente photogenia, actores populares, tratamento esmerado, photographia impeccavel e, por vezes, surprehendente. Trazem belleza, emfim. A voz humana, apesar de aberração que sofre atravéz a ampliação, não deixa de impressionar profundamente aos que a ouvem ao mesmo tempo que vêm os movimentos dos labios de quem pronuncia e a coincidencia perfeita da articulação das syllabas. Parece que se tem a impressão de mais vida, de mais realidade.

O Cinema falado, portanto, tem para nós uma cousa a estudar, que é a impressão que elle nos causará se comprehendermos os dialogos. Por certo, terá que ser differente, porque até aqui temos apreciado o Film falado sem entendermos o que falam. Por outro lado, precisamos considerar que os productores americanos só se abalançaram à industria de pelliculas faladas ou sonoras depois que os meios profissionaes, technicos e artisticos já haviam attingido a perfeição, atravéz dois decenios de trabalho ininterrupto.

A escola do Cinema silencioso entre nós foi muito curta. No emtanto, não podemos estacar no ponto em que estamos. As aventuras promettem e o nosso esforço e enthusiasmo pelo Cinema brasileiro continúa sendo o mesmo.

É assim que a Cinédia já incluiu no seu programa o Cinema sonoro e falado, conquanto este exija, para a sua boa execução, uma outra experiencia que ainda não temos. Será uma nova experiencia, mas sem duvida a Cinédia é, no Brasil, o studio mais experimentado e apto para essa tentativa.

Como dissemos anteriormente, o Cinema falado se levantou sobre a estrutura já existente do Cinema silencioso. Pois bem, a nossa pouca experiencia já é o maior cabedal existente entre nós, mais ou menos preparado para receber esse adendum, que é a sinchronização.

"Ganga Bruta", uma das producções actuaes da Cinédia, e que me coube dirigir, está sendo confeccionada de maneira a poder adaptar-se a uma sinchronização moderada, mas de molde a apresentar alguma coisa de novo, brasileira e capaz de tornar o Film mais agradavel. Algumas canções, ruidos naturaes, musicas apropriadas, será o bastante para uma tentativa modesta.

Não bastará a fala introduzida em um Film para que este comsiga agradar. É indispensavel o conhecimento e a boa applicação technica do Cinema silencioso, especialmente na sua parte photogenica e photographica, em todos os sentidos, para que então, empregados com criterio os dialogos, estes apresentem a necessaria naturalidade e precisão, qualidades que o Cinema falado exige em maior escala do que o proprio theatro.

O Cinema falado, desde que se organise entre nós, será um vastissimo campo aberto à uma padronização da arte brasileira, a uma arte mais collectiva, mais uniforme, não se falando nos enormes beneficios que virá trazer à lingua portuguesa falada no Brasil, com a disseminação, por todo o paiz, da melhor linguagem dentro do nosso variado dialecto. Será uma propaganda nova, a que virá completar a do livro e da imprensa, pois que se trata da conversação, propaganda que se torna difficil ao theatro e que, para o Cinema, é muito mais exequivel, dado o seu caracter de multiplicidade em se transmittir ao povo.

Concluindo, o Cinema falado entre nós terá que se fazer, mas sem precipitação. Terá que fazer escala pelo Cinema sonoro, com algumas sequencias faladas, para depois entregar-se inteiramente aos effeitos do dialogo. Por esse tempo já teremos uma linha regular, exclusiva de Films brasileiros, percorrendo todo o paiz, quanto mais que estamos certos de que o nosso Cinema poderá viver exclusivamente do mercado brasileiro.

Deste modo, continuamos a necessitar do apoio incondicional dos nossos fans, estes que até aqui têm sido o nosso maior estimulo, e nos quaes confiaremos sempre, assim como se confia na força daquelles que não abandonam a fé nas realizações.

Muito obrigado e boa noite.

- Humberto Mauro, "Cinearte", nº 324, 1932.

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