Glass

Glass ★★★★

O que tá martelando na cabeça após o primeiro contato, não levem muito a sério:

O tempo sempre foi generoso com o Shyamalan, com tudo o que é realmente grande. Hoje, este me parece seu trabalho mais fraco desde que estava atado aos Weinstein. Também é uma pena ver o homem de cinema mais independente da sua geração deliberadamente sufocado pela contemporaneidade na intenção de atingir um público do qual se divorciou com seus filmes mais brilhantes. Este aqui, afinal, me lembra muito A Dama na Água, com concessões... É seu mais ensaístico desde então. Tenta amarrar as "histórias de origem" da humanidade, a redenção comunitária que se constrói na narrativa, no ritual, na narração em si e as parábolas cristãs aos seus reflexos perversos explorados mais a fundo nos filmes da Blumhouse. O Shyamalan frequentemente conseguiu transitar entre diversos gêneros, diversos tons, entre a fé e o cinismo mais extremos com certa tranquilidade. Aqui o conjunto é um tanto atropelado e, Deus me livre, desleixado. Eu nunca tinha visto um dos seus planos/contraplanos simétricos em close darem errado, mas aqui vejo um horroroso. Junto ao desleixo descobri, nas minúcias, pequenos milagres. Milagre no essencial: nos olhos do menino Dunn, no McAvoy ensaiando um Lon Chaney, na comunhão silenciosa ante o anticlímax que abre todo espaço para seus coadjuvantes que ganham, mesmo que por um só gesto, uma grandeza descomunal perante uma câmera em 2019. Toda sua fragmentação e qualquer digressão é posta em perspectiva. Faz questão de mostrar que é hábil e que pode ser ágil. Mas, felizmente, "agilidade" nunca foi o forte do diretor. Pela primeira vez vejo um diálogo que parece estar lá mais para encaixar sua complexa estrutura do que trabalhar qualquer movimento/drama interno, como no interrogatório central, por exemplo, totalmente truncado na montagem, um sintoma do cinema sem respiro que almeja em partes. Dá pra sentir que os problemas nas minúcias vêm duma incompreensão por parte dos colaboradores. O fotógrafo sabe mais pintar uma parede do que focar um rosto, o compositor quer nos convencer que estamos vendo outra diarreia do Nolan, confundindo as vezes com o som que decora e reitera tudo aquilo que sobra no scope. James Newton Howard aparece por alguns segundos e nos lembra da diferença entre música e simples ruído distrativo. Evidente que são erros acumulados de Split. Ainda assim não posso reclamar tanto após o esplendor da cena e especialmente do plano final. Sublime.

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