The Discovery of Brazil

The Discovery of Brazil ★★★★

Este texto faz parte de uma série de transcrições que estamos publicando no Videodrome como resgate histórico do pensamento teórico e artesanal de algumas grandes figuras do Cinema Brasileiro. A série também é parte do material base para o curso online Constelações do Cinema Brasileiro (1898-1992), cujo programa completo pode ser lido neste link.

"FIGURAS E GESTOS"
Terceira palestra

Prometemos falar, desta vez, sobre os benefícios que o Instituto Nacional de Cinema Educativo tem feito ao Cinema Brasileiro em geral.

Deixamos de fazê-lo para responder a um fã que pergunta qual a nossa opinião sobre a orientação que devem ter os filmes nacionais e se devemos dar desde já aos nossos filmes um sentido brasileiro.

Achamos que sim. Como não? Desde que estamos começando, comecemos pelo bom caminho, deixando de lado os vícios alheios.

Hoje, como há quinze anos, continuamos pensando que o cinema, no Brasil, tem que ser um produto natural, espontâneo do meio brasileiro, com todos os seus defeitos, qualidades e ridículos, para que possa ser humano, para que o nosso povo o compreenda e o sinta.

Os filmes estrangeiros, de um modo geral, habituaram-nos a um cinema convencional, para fins comerciais e daí, sem duvida, essa preocupação que aqui já existe de se fazerem filmes brasileiros em desacordo com as nossas realidades, em conflito evidente com a vida que aqui nós levamos.

Justifica-se, até certo ponto, que o filme americano seja luxuoso, porque nos Estados Unidos a riqueza está quase sempre à vista de toda gente.

Pretender imitá-los, no Brasil, seria condenável, além do mais porque nos faltam, para isso, os recursos necessários.

Mas se o cinema estrangeiro já nos habituou ao luxo e à variedade das suas produções, estamos certos de que ainda não nos roubou o entusiasmo natural que temos por tudo aquilo que seja uma representação fiel do que somos e desejamos ser.

Sempre achamos que o indispensável, o essencial, é que o nosso tema saiba traduzir a nossa civilização, o nosso progresso no pé em que ele se acha. O filme brasileiro deve mostrar o nosso conforto como nós o utilizamos. Tudo isso para que ele seja brasileiro, para que ele tenha sua arte brasileira.

No que diz respeito aos filmes de ficção (mesmo para os documentários, na sua maior parte) a fonte de inspiração deve ser a nossa literatura no que ela tem de mais nosso, de mais humano, e pensando que os assuntos a serem filmados precisam ter uma significação qualquer na vida nacional e, se possível, um sentido educativo para as nossas populações.

Um sentido educativo, um valor artístico, algo mais que a simples apresentação de canções ou os amores fúteis de uma mulher bonita sem ligação com a nossa vida coletiva.

Seria sempre preferível filmar, em vez dos episódios individualistas de salão, os grandes temas de massa, os dramas e as comédias em que se vissem os costumes do povo, suas paixões, seus sentimentos, e não esses idílios vulgares, essa vidinha artificial, de que a maioria dos produtores estrangeiros geralmente lançam mão depois que seus métodos comerciais os obrigaram a colocar o seu cinema a reboque do estrelismo.

É lamentável, realmente, que uma arte tão complexa e que exige o concurso de tantos cérebros, que tanta influência poderá exercer na educação do povo, esteja hoje quase que a serviço exclusivo de meia dúzia de estrelas popularizadas pelos estúdios, como se populariza uma marca de sabonete.

Isso já não é arte, positivamente: é comércio. Há quatro anos, mais ou menos, declaramos numa entrevista que éramos contra o estrelismo. Aliás, essas declarações de cineastas brasileiros não são lá muito levadas a sério… Orson Welles, no ano passado ou retrasado, quando aqui chegou, disse a mesma coisa e foi uma revolução:

"Pois bem, nós declaramos textualmente o seguinte: "Sou contra o estrelismo. Não devemos escrever argumentos para exibir estrelismo: os artistas é que devem ser usados para realçar os valores, o sentido, a ideia exposta nos argumentos."

Nada melhor e mais prático do que o cinema para apressar a educação intelectual e artística do nosso povo. Precisamos, portanto, ter um cinema brasileiro para o Brasil. Que tenha arte, que habitue o povo a pensar, a conhecer as realidades e necessidades brasileiras, através de histórias filmadas com inteligência e com beleza.

Dissemos em nossa ultima palestra que o professor Roquette-Pinto, que hoje se dedica ao cinema à frente do Instituto Nacional de Cinema Educativo, que dirige, acha que o cinema destina-se a representar na educação de nosso povo um papel mais importante que o rádio.

Donde se conclui, como se vê, que o problema do cinema brasileiro é muito mais sério do que se pensa, e condenável seria deixar a sua orientação assim… à la diable, como até agora, quase sempre entregue à meia dúzia de boas vontades individuais. Nada disso chega para dar ao cinema, no Brasil, o sentido de unidade e grandiosidade que ele precisa ter.

Um bom caminho a seguir seria o documentário. Um grande filão a explorar. Achamos que o documentário seria o Cinema Brasileiro para o mundo. Mesmo o filme de enredo deve sempre ter qualquer coisa de verdade.

O documentário que nós imaginamos seria a marcha para uma nova modalidade de cinema, com imensas possibilidades, oferecendo arte puríssima e uma forma elevada de conhecimentos que os cineastas ainda não lançaram mão.

Há muitos anos que o documentário nos empolga e sempre que temos oportunidade lembramos as suas vantagens aos cinegrafistas patrícios.

Seria fixar em nossos filmes, simplesmente, a realidade, dramas - ou comédias - da vida representados por seus personagens reais ou a natureza vista em função do homem que nela se movimenta.

Nada de se filmar o jangadeiro na Barra da Tijuca ou Paquetá no estúdio com palmeirinhas de papel.

Seria, a rigor, a filmagem bem ao vivo do que se chama na literatura moderna, a grande reportagem, como a fazem por exemplo José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, quando fixam os nossos costumes tão diretamente ligados a terra. Já lembramos, certa ocasião, um documentário palpitante: algumas daquelas admiráveis páginas de José Lins do Rego descrevendo a vida de um dia, numa região nordestina. Não sairia, é evidente, um filme natural comum, desses que se fazem de um modo rotineiro, mas um espetáculo diferente, cheio de beleza, cheio de emoção, com humorismo, drama, ou quadros simples refletindo apenas momentos bonitos da paisagem.

Para o documentário, o Brasil é o pais ideal, com os assuntos espalhados por toda parte. Para tentá-lo, será necessário muito pouca coisa: filme virgem e uma câmera. Além disso, apenas conhecimento da linguagem e um perfeito senso de beleza cinematográfica.

A produção ficará muito mais barata e, a nosso ver, deve quase sempre ser pós-sincronizada, isto é, fazer o som depois do filme revelado, copiado e cortado. Ruídos necessários e boa música brasileira, como comentário na língua do país a que se destina.

Supomos que os mercados, pelo menos americanos, estarão sempre abertos a todos os documentários brasileiros de nível artístico elevado. Voltaremos a falar com mais detalhes sobre este assunto.

- Humberto Mauro, "Figuras e Gestos", Palestras Radiofônicas para a Rádio PRA-2, 1943.

Christofer liked this review