The Expendables

The Expendables ★★★★★

MACACOS PARA O SLY

Apesar de um início brilhante e mesmo com promessas revolucionárias na forma de filmes como Wolfram, a Saliva do Lobo, Os Mercenários e Filme Socialismo, a produção cinematográfica da última década em seu conjunto se encerra num estado lamentável no mundo todo. O cinema comercial suprimido em meio a trustes corporativos e campanhas publicitárias, os festivais foram dominados pelos modismos contemporâneos e pela corrupção de críticos e curadores; por fim, no cinema de gênero, a alienação de seus próprios cânones resultou no revisionismo e na nostalgia mais ignorantes que já se viram na história do meio.

Algo que difere profundamente os primeiros decênios dos anos 2000 das décadas anteriores foi a perda de uma positiva mentalidade de “linha de produção” independente em que se deram inúmeros gêneros icônicos (da comédia romântica ao thriller erótico). Ruíram os filmes pequenos e médios realizados por estúdios especializados dessas linhas, esmagados pelas megaproduções derivadas de um lado e pela concentração sem precedentes do circuito dito de arte a um punhado de favorecidos seguidores. Os sobreviventes do colapso se viram forçados a uma dura transição: astros noventistas foram para o vídeo nos anos 2000 ou para a figuração de luxo nas baixarias comerciais ou festivaleiras de subcineastas (dos flertes de Stallone aos casos mais extremos de Van Damme, passando pelo estrelato decadente de gente como Sharon Stone, Nicolas Cage, Antonio Banderas, os irmãos Baldwin, Linda Fiorentino, Bruce Willis, entre vários outros).

O que o cinema ganhou de 2000 pra cá? Vergonha na cara, essa é a catástrofe!

E os cineastas, embora derrotados, não morreram: perseveram numa dedicada reação ao estado das coisas. São, em geral, realizadores de idade avançada que compõem o grosso das listas de melhores filmes do período: Clint Eastwood, Jean-Luc Godard, Abel Ferrara, Sylvester Stallone, Jean Claude Brisseau, Tobe Hooper, Júlio Bressane, Ken Loach e alguns outros que, entre vivos e mortos, formam uma vibrante tradição dos veteranos que persiste contra todas as tentativas de críticos e agentes da cultura de impor a primazia dos critérios contemporâneos a tudo que é possível conceber em matéria de filmes. Junto a eles, há um número menor, porém não desprezível, de companheiros de guerra um pouco mais jovens, sem unidade geracional, jogados à própria sorte e francamente marginalizados pela indústria. Este grupo incrivelmente heterogêneo inclui Na Hong-jin, Joana Torgal, Rodolfo Pimenta, e M. Night Shyamalan, além de seus irmãos mais velhos: Pedro Costa, Leos Carax, Johnnie To, Eugène Green, Rob Zombie e um punhado de outros membros de uma evanescente geração intermediária.

O fato de que esse isolamento geracional quase matou qualquer chance de continuidade entre os veteranos e os aspirantes torna ainda mais extraordinária a existência de jovens cineastas dispostos a enfrentar o status quo. Esta seleção existe precisamente para nos lembrar de que tal continuidade dos insurgentes e dos derrotados do passado e do futuro não é somente possível, mas nossa maior esperança de redimir a arte do cinematógrafo.

Todos os filmes destes realizadores tendem para uma linha e têm um espírito comum que poderia ser resumido simplesmente em anacronismo. Talvez inconscientemente estes filmes tenham abandonado plenamente a obsessão pelo contemporâneo, pelo que é mundano e urgente. Obsessão que foi concentrada em matéria perene e austera. São filmes de temas grandes, com personagens grandes, mas sem a pompa oficial da relevância. É uma grandeza espartana: enxuta, rigorosa e despojada.

Filmes perdidos no tempo, sobre estar completamente perdido e alienado do seu tempo, abordando o próprio anacronismo, a disfuncionalidade dos seus personagens: Os Mercenários, Djinn, O Lamento, A Parte dos Anjos, Le Masque de la Mèduse, Educação Sentimental, além de todos os filmes extraordinários do Clintão, quem mais consistentemente realizou obras-primas nesta década.

Júlio Bressane talvez nos dê o melhor exemplo: ao realizar o maior filme brasileiro desta década, recusou filmar o Brasil contemporâneo, pois não há Brasil para ser filmado. Já afirmou Guilherme de Almeida Prado: “É possível fazer filmes sem dinheiro, é impossível fazer filmes sem um país”. Educação Sentimental trata das coisas antigas, num espaço abstrato e remoto, muito longe do ouro e das cartilhas políticas.

O único que não traz o anacronismo frontalmente como tema é o grande filme utópico da nossa lista: Wolfram, a Saliva do Lobo, cinema sublime sobre nossos tempos e, à sua maneira, avesso a qualquer rotulagem temporal. A utopia já é uma proposta anacrônica. Ao contrário da linha geral de urgência, Wolfram, que é um filme atual, é tão atual quanto impensável a sua proposta mesma. O seu tempo, as suas estruturas, as diversas relações de trabalhos que compõem essa sociedade só podem ser totalizadas no próprio filme.

Do outro lado do mundo, a modernidade é assassinada em Djinn: a modernidade de um projeto de civilização e a modernidade de um cinema que foi sequestrado e soterrado em deserto árabe. A utopia colapsa sob o peso do seu passado e das suas tragédias particulares, pois elas contrapõem o universalismo falso do novo edifício, da nova cidade sobre uma antiga vila em ruínas. A plena compreensão dos mitos, da história, das relações de trabalho e das relações familiares dinamitam as estruturas do futuro. Como Tobe Hooper já havia ensaiado em seus filmes anteriores, especialmente Invasores de Marte: Djinn é o pesadelo de estar acordado, conforme o progresso. O pesadelo dos progressistas e dos reacionários. Não é possível escapar da própria origem ou do que nos cerca. É o sonho de uma outra vida, uma perversão do que sempre esteve ali, e os personagens são forçados a viver com isso eternamente. A canção de ninar não faz a criança adormecer, a chama de volta às ruínas. As estruturas e os edifícios estão em pé para quem os conhece e quiser vê-los. "Se você não sobrevive ao amanhecer… Não sobrevive." Termina ao amanhecer. No deserto, tudo está morto e imóvel. A luz natural engole a elétrica e a canção de ninar ecoa como um lamento.

Tamanha subversão não veio sem preço: Djinn foi tirado de Tobe Hooper; seu corte foi impedido de circular mesmo em cópias restritas (como é de praxe na distribuição) e uma nova versão foi deixada aos auspícios de produtores insatisfeitos com a independência criativa e política do realizador americano. O caso pouco repercutiu na indústria; protesto nenhum foi feito em defesa do diretor ou contra o silenciamento que sofreu. Entre as distorções mais bizarras impostas pelos produtores ou pelo governo ao filme em seu corte para o cinema (ou para o vídeo, no ocidente) está a supressão completa da atividade econômica que sustenta a vila destruída e que hoje serve de mera decoração a nova sociedade que estão construindo, como um monumento obscurantista. Não foram cenas que caíram, mas pequenos planos ou detalhes que surgem sutilmente na extensão dos que foram mantidos pela montagem traidora, que davam toda a dimensão trágica e crepuscular para as pessoas e os espaços que Hooper pode filmar nos seus últimos anos.

Os Mercenários é outro caso estranho, outro caso de um lançamento equivocado que minou parcialmente o que tinha de melhor. É o último rebento da linhagem Cannon Films, que muito além de ser responsável pela formação dos seus astros, formou seus produtores, quase uma resistência final em Hollywood por um cinema popular e independente. Foi o grande sucesso da Nu Image, que largou de fazer cinema logo após, tomando como exemplos as sequências da própria franquia. Sem rodeios, Os Mercenários encarna todas as virtudes de que falamos: é rigoroso, enxuto, despojado, violento, trágico e absolutamente viripotente, concentrado na matéria mais importante: o homem entre os homens. Muito mais importante para Stallone do que fazer cinema autoral, é fazer um cinema de ator. Do drama, da ação, da emoção e do espetáculo.

A situação atual é tal como falou o próprio Sly quando da filmagem de Os Mercenários: “Você poderia explodir o país deles inteiro e eles ainda iriam dizer: 'Obrigado, aqui está, leve um macaco para casa!'” O paradoxo desta década que começa incendiária com Os Mercenários é tão absurdo que ela parece não ter começado. Em meio à estéril lassidão, olhamos para o cinema hoje, especialmente para o que é produzido em terra brasileira e rezamos para que algo exploda. Muitos ainda vivem dos restos de décadas passadas, que já davam sinais de exaustão e falta de espaço para os veteranos de guerra. Ainda assim, em meio à covardia generalizada dos sistemas de produção e, principalmente, de distribuição, vários desses filmes memoráveis, pequenos atentados ao status quo, foram sabotados no instante em que se percebeu seu desalinhamento com os aparelhos culturais. Mais ainda, esses filmes foram muito mal exibidos (alguns sequer o foram), mal divulgados e vítimas do jornalismo serviçal mais rasteiro. Em suma, foram escanteados.


Texto escrito em parceria com o Fernando Costa para o Videodrome.

Christofer liked this review