Tabu

Tabu ★★★★

Em A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio (interpretado aqui por José Lewgoy), a seguinte passagem sobre o flâneur pode ser uma boa definição para Tabu, este filme musical como chanchada, intelectual com tanto senso: "Flanar, é vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico". Mais pra frente ele fala da "psicologia da rua". Em Tabu as ruas não são movimentadas, mas se mesclam à vegetação e à boêmia de armazéns e passagens, são lugares onde é possível parar. Há um plano de Jacob do Bandolim sem seu rosto, apenas o bandolim: a câmera vira para um par de sapatos em cima da mureta da rua Aperana: eles caminham para o fundo e voltamos ao bandolim. Plano geral de Lamartine e Jacob, na imobilidade em movimento da vadiagem. Quando Lamartine ensina uma Foliã a marchinha Aurora, de Antônio Nássara, a câmera segue um trenzinho de outras foliãs dançando: o movimento do trem leva a câmera para o contracampo, estamos na rua à noite debaixo de passagens e de marquises nas cirandas dos gringos Oswald e Isadora Duncan.

A seguir, algo que o amigo Bira escreveu sobre o filme. Estamos, junto com Christofer Pallu, numa conversa sobre o filme a ser publicada aqui. Abordaremos Tabu em nosso curso online CONSTELAÇÕES DO CINEMA BRASILEIRO, a ser realizado a partir de finais de junho, mais informações aqui:

Filme de fantasmas para almas penadas. O encontro na encruzilhada faz pirraça, samba & vertigem no sentido cinematográfico. Safadeza na prova dos 69, o gesto erótico como catapulta de novas cabeças perambulantes na escadaria do Prazer. Acerte o bando & se deleitará pelo véu das ninfas corsárias, urina no coliseu. Esculpir o tempo com o bocejo do ÓCIO CRIADOR, maquinado em doses de cachaça, trocadilhos & quem sabe encontrará ORFEU. Poesia do ritual intransigente em sua alquimia agregadora: popular no erudito, o traje fino na epiderme quente & todas as persuasões da montagem que “desmonta” cinematografias para escalpelar o grande sol dos trópicos. A LUZ É VOLTAGEM DE PASSOS, labirintos dosados com muambas de asas & desarranjos de vistas, desequilibrando o presságio na piada do galho, a câmera eterna fuga da LEI. A morte é sedução que nos impõe lubrificar a locomotiva com um infinito fumacê de perspectivas, ogivas & principalmente a marchinha que engata o além. Faça de sua vida uma festa & todas as feras serão contornadas com a aura-bufante, quebrante, eterna disposição dos que sabem rebolar. Versos por instinto, mais carinho, os rebus fora do ninho, o tabu é o tatu correndo o vento para assim despertar os extremos que apenas o PAU DURO & a XANA ÍMÃ irão ressuscitar.

Eduardo liked this review