Glass ★★★★½

“Você tem 9 anos para sempre? É extraordinário. Você olha o mundo com a curiosidade que todos poderiam ter.”

A crença de que o heroísmo e o extraordinário não necessariamente andam juntos, que as contradições da magia a fortalecem, e repressões pela harmonia social distorcida podem ser combatidas com pequenas germinações de ideias de fé. Um passo novamente arriscado do Shyamalan ao lidar com seu filme cujas expectativas abraçariam o que existe de mais consagrado no gênero dos super-herois e seus embates, mas que escolhem lidar com elas sob a ideia da potência do crer, do enfrentamento de resistência através das ações físicas e metafísicas, do científico usado para domar barreiras e não rompê-las, e da franca frustração com um ambiente que não devolve os atos milagrosos aos quais é exposto.

É um filme revisionista de super-heróis em um período do gênero no qual a magia foi substituída pelo cinismo cômico, e Shyamalan contempla os gestos de poder através do minimalismo da câmera que privilegia reações e batalhas emocionais ante o espetáculo de escalas enormes negado aqui - cujo clímax, abertamente metalinguístico e raivoso como A Dama na Água, lida diretamente com as consequências de vestir o papel no gênero ao qual David, Kevin e Glass foram inseridos. Os quadrinhos como um documento histórico de um processo de sensações e contemplação do mágico absorvido por pessoas atingidas por um profundo desejo de autoconhecimento, e cujas possibilidades o diretor acredita serem das mais variadas - num teste de mitologia traduzida em encenação que por vezes é muito expositivo, e montado com alguns percalços, mas raramente subestimando a reflexão promovida em especial pela ótima personagem vivida por Sarah Paulson.

O campo da imaginação em cheque diante do uso de dados concretos para deslegitimar o heroísmo, aqui entendido como uma questão conservadora que estava na base do vigilantismo que gerou tantos superherois, mas cuja base na magia sobrevive através do legado para desmantelar o reacionarismo presente no conceito - literalmente o verdadeiro vilão do filme. O que sobrevive não são os atos de confronto, os salvamentos, mas sim o que os herois despertam em quem vive um cotidiano de ordem e vê o caráter desestabilizador da transgressão através dos deuses na terra que agem para sua proteção ou destruição.

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