Phantom Thread

Phantom Thread ★★★

É uma obra que na maior parte do tempo se interessa por tudo que tem de menos interessante. Acho que muito disso tem a ver com o fato de que o PTA não percebe o quão grosseira é a sua sutileza, no sentido de que basicamente sua forma não se aplica às molduras e bibelôs do "bom gosto" que tanto se esforça em emular (uma noção europeia muitíssimo Ianque de "clássico" e "requinte").

A atitude e a força do filme existem (aí sim, bem marcantes) quando ele percebe que tanto seu gesto como realizador quanto os gestos de Woodcock são absolutamente obscenos (o primeiro encontro, o roubo do vestido da mulher desmaiada, a cena no ano novo, o carinho/fetiche final). Daí que a comparação com Kubrick perde qualquer sentido, porque em seu cinema essa obscenidade está enraizada em qualquer ato, qualquer imagem, nunca perdida dentre tanta falsa elegância como aqui (Eyes Wide Shut e principalmente Barry Lyndon são exemplos contrários à Phantom Thread).

Quando o filme parte para esclarecer o quão simples são suas percepções e temáticas, ele firma uma autoria nas trocas do Day Lewis com a Krieps (o fator mais essencial no fim das contas, mas que parece meio diluído num realizador tão absorto e impressionado com as próprias imagens, por mais banais que sejam). Parece um ciclo que o filme passa a cada 15 minutos de projeção: encontrar um caminho, compreender-se, apenas para retomar a imagética de comercial da Nespresso e o academicismo meia boca ao fim do ciclo. Tem passagens em que acaba ficando desinteressante mesmo, morno em todos os aspectos. A sociopatia e o jogo de poder acabam sendo mais teóricos do que práticos e o pianinho (digo pianinho com todo o respeito ao Greenwood) tem que chegar pra cobrir certo vazio deixado por um diretor que aqui parece pouco ciente (ou até envergonhado, eu diria) de suas mais firmes qualidades.

joaopedrofaro liked these reviews