2046 ★★★★★

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Wong Kar Wai é um deus da sensibilidade e do romantismo. E muito parecido como as grandes histórias de amor se efetuam em nossas vidas, "2046" tem uma cronologia inquieta, que se dilata e contrai, misturando idealizações, memórias, fatos.

Parte da trilogia estética que este, "Amor À Flor da Pele" e "Dias Selvagens" compõem, "2046" relata os casos amorosos de Chow Mo-wan após se separar da mulher que acreditava ser o amor de sua vida, além do conto de ficção científica que escreve baseado na sua memória sobre o número-título.

Kar Wai mistura todos estes elementos, cada um à sua cor, estética e ritmo, cada personagem à sua língua - literalmente, cada personagem fala uma língua diferente - mas todos em perfeita harmonia, ligados pela melancolia e sensualidade em que Mr. Chow relembra sua vida, suas escolhas desafortunadas diante das possibilidades.

Como todo filme de Kar Wai, a sensibilidade é explícita e toma as rédeas, especialmente se você compreende que deve abandonar racionalidades e aproveitar os delírios sentimentais do diretor, com suas imagens épicas de tirar o fôlego (as cenas no topo do Hotel Orient... putz!).

Pois, afinal, depois que você decide abandonar às lembrança, do mesmo jeito que Tak (o passageiro do trem da história de Chow), seus amores se tornam andróides à mercê de sua memória, de como você as deseja ver, muitas vezes misturadas, fora de ordem, muito mais sensações que fatos... aliás, fatos! que patético... com uma cronologia inquieta, que se dilata e contrai, misturando idealizações, memórias...