Suspiria

Suspiria ★★★★★

Por uma noite, uma madrugada inteira fiquei me perguntando o que Suspiria significa para mim. Para mim, que não como muitas outras pessoas, tenho uma memória favorita de infância; uma memória muito clara, um pouco amarga também. Eu adorava ir à locadora para alugar filmes de terror, com a minha mãe, e eles custavam cinquenta centavos, e às vezes eu os guardava comigo por um tempo maior do que o possível, do que o devido. Durante os dias que eu os guardava, não sabia que, dentro de mim, havia uma paixão ridícula, um sentimento infeliz por aqueles filmes. E como toda paixão, como todo sentimento exagerado, eu me flagrava pensando: talvez eu tenha nascido para isso, talvez seja o que eu sei fazer, talvez a minha vida signifique tal coisa. Eu posso afirmar, sem vergonha nenhuma, que costumava pensar isso até horas antes da noite de ontem, da madrugada de ontem.

O remake de Suspiria não faz parte de um costume, de um hábito, e não falo somente da parte do público, mas também do Luca Guadagnino. Os filmes do Guadagnino não são como Suspiria, eles são muito italianos, muito verão e água, uma cor feliz em cima de uma história não muito feliz, mas também nenhum outro filme é como ele também. O Guadagnino me deu um banho de água fria no momento em que se distanciou do verão de "I am love" e fez Suspiria, me mostrando que não, eu não nasci para isso, nem ele também, e tudo bem. Senti como se tivéssemos conversado sobre como eu me sentia com os filmes de terror, e senti que ele tivesse me dito algo como: eu não nasci para isso, não é o meu tipo de filme, é estranho, mas eu fiz. Ele fez, e me deu um banho de água gelada, e eu não fiquei chateada. A sensação que Suspiria me deu foi de alívio, me contando um segredo que há muito tempo todos guardavam: sim, é possível.

Tudo foi diferente, pareceu o meu primeiro filme, inclusive Tilda Swinton foi. Eu acompanho a Tilda há seis anos agora, gosto de dizer que é como se fosse um casamento, que eu conheço ela muito bem e que ela me conhece. Já vi a Tilda em diversos filmes, fingindo ser diversas pessoas, de uma vampira a uma rockstar que perdeu a voz, mas nunca a tinha visto do modo como vi em Suspiria. De repente eu a desconheci, contudo sinto que a conheço muito mais agora. Ela pareceu uma outra atriz, uma outra linguagem, e isso também não me chateou. Descobri, por intermédio dela, que eu gosto de mudanças, que elas serão sempre bem-vindas.

Suspiria é uma grande mudança, e eu me sinto muito bem por isso. Ele tem poucas cores, e como poderia ter? Se a Alemanha vivia um tempo preto e branco e todos se sentiam meio preto e branco; ele é um filme silencioso — apesar da trilha sonora maravilhosa do Thom Yorke —, e como não poderia ser? Se Suspiria é um sussurro, um quase silêncio, e as pessoas se movem mais do que falam. E eu pude me conectar a elas, por uma dança absurda, por um excessivo toque de mãos, e elas não precisariam me dizer nada.

Ao contrário do Suspiria do Argento, eu me senti íntima de cada personagem do filme, como se pudesse tocar cada uma. Me senti íntima das músicas e dos passos, e dos espaços. Me senti íntima da Alemanha, e dos cigarros que tinham sido proibidos pelo Terceiro Reich e como a Madame Blanc está sempre fumando. Eu me imaginei fumando tambem. Me senti apenas o público em certos momentos, pois todo filme precisa de um olho de fora e por isso há o Josef, que precisava observar já que não ouvia muito bem; mas o mais importante é que eu me senti aliviada, bem mais eu.

Suspiria foi uma grande mudança. A gente não nasce para nada, e é por isso que tudo se muda.

Block or Report

sucos liked this review