Promising Young Woman

Promising Young Woman ★★★★

Existe um desejo mórbido em tentar entender o que move Cassie a se expor e enfrentar predadores sexuais que esperam a presa (a mulher) estar vulnerável (álcool & drogas) a fim de atacar. Este interesse aumenta à medida que a personagem construída no roteiro, com vida recebida de Carey Mulligan, exibe comportamentos que a dimensionam muito além do sentimento de vingança. Cassie não está fechada ao mundo só porque deseja isto, mas porque deve agir assim, caso contrário estaria vulnerável no mundo dos homens.

Como a diretora e roteirista Emerald Fennell expressa a ambígua e sempre interessante personagem e também este tema urgente é de imensa felicidade. Ao colorir o mundo em que habita Cassie, a diretora conserva as sombras dentro dela somente, como algo que precisa ser exorcizado. Já com o auxílio de uma trilha musical contemporânea e vibrante, a diretora utiliza a estrutura do thriller de vingança (explorado por John Wick e similares) de modo a criar uma produção que dê ao público-alvo feminino a mesma satisfação que os homens têm quando assistem a homens matando uns aos outros.

Mas, adicionado a isto, há bastante reflexão e nada é muito casual quanto parece, ainda mais porque Cassie é a primeira vítima do comportamento vingativo. A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena, dizia o pensador Seu Madruga, e, brincadeiras a parte, o pensamento nunca caiu tão bem: enquanto parte solitária nesta cruzada contra o mundo, Cassie é quem experimenta a amargura de ser quem é. De novo, não porque quer, porém porque o mundo a fez assim.

Esta contraditoriedade é o combustível de uma mais explosivas atuações da carreira de Carey Mulligan, talvez a sua melhor, construída sobre um roteiro lapidado e provocativo, com auxílio de atores coadjuvantes que encarnam arquétipos conhecidos e da direção afiada de Emerald.