After Hours

After Hours ★★★★★

É muito fácil e preguiçoso cascar nos críticos de cinema - mas a verdade é que foi uma crítica numa revista que despertou o meu amor pelos filmes. Corria o ano de 1986. No Cartaz do Expresso, o suplemento de cultura desse semanário, um texto assinalava o lançamento de Nova Iorque Fora-de-Horas, de Martin Scorsese, em vídeo. Em VHS. Edição Warner Home Video / Kodak.

O texto, de Jorge Leitão Ramos, era uma pequena lição sobre como ver um filme. A dada altura ele dizia qualquer coisa como isto, e estou a citar de memória - “amar o cinema a sério é perceber que os vários planos que Martin Scorsese usa para mostrar um molho de chaves a ser atirado de uma janela, cá para baixo, para o protagonista, não são gratuitos e servem a história”.

A medo, entreguei-me a Nova Iorque Fora-de-Horas, com receio de não perceber a razão dos tais planos do molho de chaves e de, por isso, não conseguir amar o cinema convenientemente. Mas, espanto dos espantos, percebi.

Não tenho 100% de certeza que a minha visão do molho de chaves seja a mesma do crítico - mas deixem-me descrever-vos o momento em que isso acontece. Griffin Dunne, o protagonista, hoje no elenco da série This Is Us, está cá em baixo, na rua, numa posição super vulnerável, e tudo o que ele quer é encontrar Rosanna Arquette, a miúda que conheceu horas antes num bar e que, supostamente, está num apartamento daquele prédio. Quando, lá de cima, da janela, Linda Florentino lhe atira as chaves, elas deixam de parecer só um molho de chaves - tornam-se o prenúncio de uma avalanche de sarilhos que aguarda o protagonista naquela madrugada e que, tal como o molho das chaves, está prestes a desabar-lhe em cima, que nem uma praga bíblica.

Nova Iorque Fora-de-Horas é uma comédia negra hilariante, uma fascinante carta de amor e de ódio a uma cidade onde tudo - e acho que não estou a exagerar quando digo “tudo” - acontece a um pobre diabo que só queria companhia. Paul Hackett trabalha num escritório de dia e deseja escapar da rotina. Mas é preciso ter cuidado com o que se deseja - a madrugada torna-se numa aventura surreal que transforma Manhattan numa espécie de País das Maravilhas e o pobre Paul numa Alice, perseguido pelo mais insano elenco de personagens da noite nova-iorquina - a dada altura, atrás dele, num carrinha de gelados.

Para Scorsese, After Hours foi um pequeno divertimento para esquecer a frustração de, em 85, não ter conseguido pôr de pé o seu projecto de sonho, A Última Tentação de Cristo. Tim Burton ia realizar Nova Iorque Fora de Horas, mas quando soube que Martin Scorsese estava interessado, Burton - na altura um jovem realizador em começo de carreira - simpaticamente desistiu do projecto, passou-o a Scorsese e foi tratar de Beetlejuice.

Para mim, Nova Iorque Fora-de-Horas é um filme perfeito. Em pouco mais de hora e meia e com uma velocidade incrível, Scorsese, e o argumento de Joseph Minion, brincam com a ideia de prisão e de escape - a prisão da rotina dos dias, o escape da loucura da noite e a aparente impossibilidade de fugirmos, e de não sermos mais do que ratos de laboratório numa experiência marada de, quem sabe, um ente superior.

Não é à toa que a personagem de Griffin Dunne, Paul, a dada altura, não encontra outra saída que não virar-se para o Céu, em desespero, e perguntar “PORQUÊ?”. Ninguém tem resposta, caro Paul. No fundo, andamos todos ao mesmo.