Batman

Batman ★★★★★

Foi qualquer coisa, o Verão de 89. Para os americanos, porque foi nesse Verão que estreou Batman. Para europeus como nós, porque foi nesse Verão que se falou sobre Batman. 

O filme só chegaria cá no Outono, mas a Batmania durou meses. No meu caso, começou com uma notícia, lida num jornal, sobre o facto de Prince fazer a banda sonora. Fã devoto de Prince há pouco tempo, cortesia de um colega de escola que me emprestou obras-primas como Purple Rain e Sign O The Times para eu saber o que era música a sério, e também fã de Batman algures entre os comics clássicos e os - na altura - modernos como A Piada Mortal, achei a combinação mágica. De Tim Burton ainda não tinha ouvido falar.
A partir daí, a coisa não mais parou - mal a banda sonora saiu, ouvia-a em loop. E lembro-me de ir com amigos ao cinema, quase tão entusiasmado para ver filmes novos, como para ver o curto, incisivo, e poderoso trailer de Batman.

Até que Outubro chegou, e o filme estreou. E sem Internet (porque não havia tal coisa), apenas com as notícias que chegavam em jornais e revistas, o hype estava para lá de tudo o que é humanamente aceitável. Lembro-me de andar com o meu grupo de amigos de cinema em cinema, numa quase sempre vã esperança de que houvesse bilhetes para a estreia. Lá conseguimos, no Cinema Londres, na Avenida de Roma.

Estávamos nervosos. O coração batia forte quando o logotipo da Warner Bros surgiu no ecrã sobre um céu invulgarmente escuro e o tema de Danny Elfman crescia. Os nomes no genérico surgiam sobre planos de movimento naquilo que parecia ser uma caverna - e que, no fim do genérico, percebíamos que era, afinal, um gigantesco sinal do morcego esculpido em pedra.

É discutível se Batman, de 89, será melhor do que Batman Regressa, de 92. Muito sinceramente, custa-me escolher - mas há um quentinho especial no meu coração para o primeiro filme. Pela loucura divertida que foi a Batmania, e porque, na prática, o mundo parou por uma coisa rara: um Blockbuster multimilionário que era, também, uma visão de autor. Batman, de 1989, é uma aventura tão empolgante quanto extravagante. Nada ali obedece inteiramente às regras do cinema de acção. É novo e arriscado. Há sequências épicas, sem dúvida - mas há também puro delírio, como quando o Joker vandaliza um museu ao som de Partyman, de Prince, ou apresentadores de noticiário morrem, literalmente, a rir por causa de um veneno do Joker.

Jack Nicholson é um Joker sublime; Michael Keaton, que vinha de Beetlejuice e foi uma escolha odiada por fãs da BD, provando que parvos tóxicos não são coisa de hoje, torna-se naquele que continua a ser o melhor Batman de todos: duro e sinistro como Homem-Morcego; neurótico, cómico e vulnerável como Bruce Wayne. A Kim Basinger, como Vicky Vale, não é dado muito mais que fazer do que ser a dama em apuros - mas todo o conjunto resulta num dos grandes e mais originais blockbusters de sempre. E experimentem ver o clímax na torre da Igreja, com o Joker a dançar a valsa com Vicky Vale e Batman a despachar bandidos, depois de reverem O Estranho Mundo de Jack. Aquilo já era Tim Burton puro - é quase animação com gente.

Batman inventou o blockbuster moderno e continua vigoroso e criativo como poucos.