Blade Runner

Blade Runner ★★★★★

Não vi Blade Runner em 1982, quando estreou no Cinema. Lembro-me do spot na televisão, com a voz inconfundível do João David Nunes, e de ver o icónico cartaz do filme, com um gigantesco Harrison Ford de pistola em punho no meio de arranha-céus iluminados e carros voadores, a forrar as fachadas de alguns dos grandes cinemas de Lisboa.

Mas a verdade é que em 82, eu era mais Star Wars. Claro que um filme interpretado pelo tipo que fazia de Han Solo, suscitava a minha jovem curiosidade. Mas a verdade é que Blade Runner era, se não me engano, para “maiores de 16”. Por isso, a minha vida seguiu sem grandes inquietações. Até 1987.

Em 1987, a RTP anuncia a transmissão de Blade Runner - Perigo Iminente, de Ridley Scott, numa sessão nocturna de fim-de-semana. O meu colega de escola mais cinéfilo, o Luís Gonçalo - a quem devo preciosas dicas para desenvolver o meu amor pelos filmes - intima-me a não perder o filme. “É o melhor filme de sempre”, dizia ele. Creio que me ameaçou de porrada se eu não o visse. 

Assim foi: na noite anunciada, pego numa boa velha VHS Kodak virgem, ponho-a no videogravador e dou-lhe forte no REC mal o filme começa. A noite estava ventosa e não havia televisão por cabo - estávamos nos tempos da boa velha antena no telhado, e cabos que subiam desde a nossa casa até lá acima. Estava um temporal inacreditável, nessa noite. O cabo da antena soltou-se e andava às chicotadas à janela lá fora. Cada abanão no cabo surgia na imagem do filme sob a forma de riscos e interferências. Mas, mesmo com esses problemas todos, Blade Runner entranhou-se na minha mente, no meu coração e na minha vida.

Los Angeles, 2019. Um ano que parecia impossivelmente distante, nos anos 80. Harrison Ford é Rick Deckard, um Blade Runner - designação dos caçadores de replicants, falsos humanos criados em laboratório para servirem a Humanidade. O que os faz revoltar-se? O que os faz virarem-se contra os seus criadores? O que os faz ser vilões? Na verdade, algo muito simples. Muito humano, na verdade: o medo de morrer. A angústia de ser desligado. 
Tudo isto são ideias que estão no livro original - Sonham os Andróides Com Carneiros Eléctricos, de Philip K. Dick. Na versão filme, aproveitam-se personagens e conceitos do livro e remistura-se tudo, num universo visual tão detalhado, uma civilização tecnologicamente avançada e, ao mesmo tempo, decadente, tão claramente filmada que nos sentimos parte dela. A empatia que sentimos por todas as personagens - desde os heróis aos vilões, Rick, Rachel, a replicant por quem ele se apaixona, interpretada por Sean Young - Roy, o chefe dos andróides revoltosos, uma criação espantosa de Rutger Hauer, ou a sua cúmplice, Pris, a quem Daryl Hannah se entrega de corpo e alma - transforma-se em poesia pura quando, depois de uma intensa sequência de perseguição e violência, isto acontece:  Roy, o andróide revoltoso, nos seus momentos finais de vida, depois de salvar Rick, o seu perseguidor, tem um dos monólogos mais tocantes da História do Cinema, sobre o medo de todos nós - todos os grandes momentos da nossa vida, perdidos no tempo, que nem lágrimas à chuva.

Sei Blade Runner praticamente de cor, bem como a saga da sua criação: um caos de zaragatas entre produtores, realizador, argumentista e actores. Exemplo: a voz off de Harrison Ford foi imposta pelo estúdio. Nem Ridley Scott nem Harrison Ford a queriam - e a razão porque Ford soa tão maçado a dizê-la, é porque estava, de facto, contrariado a gravar o texto. No entanto, o tom resulta em pleno, na versão de 82 do filme. Scott faria o seu “director’s cut” mais tarde, em 1992 - e esse já fui ver ao cinema - sem a voz off, sem o final abertamente feliz e com detalhes que levam a crer que também o protagonista, o Blade Runner, ele próprio, poderá ser um andróide.

Ficção científica, filme de acção, poema existencial. Tudo ao som de uma banda sonora extraordinária de Vangelis. Com 16 anos, vi e revi a VHS gravada da RTP durante meses, com os riscos do temporal e tudo, até comprar a VHS oficial, decente. Depois comprei o Laserdisc. O DVD. A edição de coleccionador em Blu-Ray com todas as versões que se fizeram. Não há filme que eu tenha em mais edições. Uma odisseia futurista com carros voadores e humanos sintéticos falou-me ao coração como poucos filmes me falaram. E os filmes falam-me muito ao coração, como é sabido. 

Blade Runner pode ser visto como ficção científica, filme de acção, policial futurista - mas acima de tudo, é uma experiência. Um filme que se vive mais do que se vê. Teve uma excelente sequela de Denis Villeneuve, Blade Runner 2049, mas não há amor como o primeiro - e não há angústia existencial como a primeira.