Blood Simple

Blood Simple ★★★★★

Quando se resume a alguém a história de Sangue por Sangue, o primeiro filme dos Irmãos Coen, a sensação é que já vimos aquela narrativa muitas, muitas vezes. OK. Há uma mulher fatal. Há o amante dela. Há o marido dela. Há um detective privado. E há sangue. Não é preciso ser um génio para decifrar, mais ou menos, tudo aquilo que vai acontecer.

Então como é que este filme consegue ser tão original?

Feito em 1984, Blood Simple estreava o método de funcionamento de Joel e Ethan Coen - pegar na memória do cinema, nos clichês de cada género (e eles gostam particularmente do chamado film noir, as histórias de crime na boa tradução de O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes ou Pagos a Dobrar) e distorcê-las até as fazer suas.

Vi Sangue Por Sangue na televisão, nos meus anos de formação do gosto cinéfilo. E lembro-me de ter lido uma crítica num jornal a falar do filme com um certo peso - uma história dramática, plena de suspense, de angústia. Era para isso que eu estava pronto.

Agora imaginem o meu espanto quando dou por mim... a rir.

A minha primeira sensação foi - o problema é meu? Estarei a ficar perverso? A minha segunda sensação foi - o problema é do filme?

E depois percebi que não há qualquer problema com o filme - a maravilha de Sangue Por Sangue é que não é bem um thriller como os outros. O esqueleto é sacado aos clássicos dos anos 40 e 50. A carne e o molho são 100% Coen. 

E os anti-heróis dos Coen não são exactamente a gente bonita da idade de ouro de Hollywood. Em vez do cenário urbano habitual nestas histórias de atrações fatais, Sangue Por Sangue passa-se na América rural; os seus protagonistas são rednecks; as emoções fervem da mesma maneira do que nos clássicos, mas os Coen aumentam a fervura da comédia negra.

E há uma cena - que continua a estar no top 3 das minhas cenas favoritas de sempre do Cinema - em que a vítima de um assassinato (que nos filmes noir, normalmente, morre à primeira) fica, digamos, mal assassinada. E cabe ao assassino estreante - que julgava que já tinha o trabalho acabado - lidar com um moribundo que ele não tem coragem de matar uma segunda vez. Mas também não o pode deixar viver. 


A cena é sublime. E da primeira vez que a vi, lembro-me da luta interior entre rir e sentir profunda angústia por aquela mistura de tragédia e de ridículo que está ali a acontecer. Os Coen não despacham o momento a correr - saboreiam cada desastrado momento entre dois actores em absoluto estado de graça: John Getz, o assassino amador, e Dan Hedaya, a vítima. Revelar como a cena acaba é estragar a surpresa e o choque do momento. Digamos apenas que a cena está tão meticulosamente filmada, montada, interpretada que é um prazer ver uma situação tão inacreditavelmente horrível.

Mas isto resume muito do que os Coen fizeram daí para a frente, em filmes como Fargo, por exemplo - interessa-lhes o pendor da Humanidade para fazer mal ao seu semelhante, mas também o quão patético e mal pensado, quase ingénuo, pode ser esse processo.

Para além de John Getz e Dan Hedaya, Sangue Por Sangue punha ainda no mapa Frances McDormand, a mulher no olho do furacão de desejo e traição, e o sempre incrível M. Emmet Walsh, no papel de um detective privado com pouco ou nada de Humphrey Bogart.

Todos estes anos desde a sua estreia, o filme que revelou os - na altura - jovens Irmãos Coen continua perfeito como um mecanismo de relógio suiço. Mas que não se pense que é um autómato frio. Blood Simple - que é tudo menos simplório - é quente, divertido e viciante. Perdi a conta de quantas vezes o revi e quando a canção Same Old Song, dos Four Tops, explode, no final, com uma ironia maravilhosa a contrastar com o vermelho do sangue, fico tão encantado como da primeira vez.