Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb

Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb ★★★★★

Durante muitos anos da minha infância, Peter Sellers foi, para mim, o Inspector Clouseau. E o inspector Clouseau, para mim, era quase uma religião. Os filmes da Pantera Cor-de-Rosa eram caos cómico criado como se fosse ourivesaria por um dos grandes mestres da comédia, Blake Edwards.
Cresci por isso a ver e a rever os filmes da saga Pink Panther (o meu favorito, já agora, é Um Tiro no Escuro). E quando, num fim de semana de Verão da minha adolescência, a RTP anunciou a exibição de Dr. Estranhoamor, as duas palavras que me puxaram foram, claro, Peter Sellers. Como não ver um filme que eu ainda não tinha visto, com o tipo brilhante que tantas alegrias me dera, desde miúdo, a fazer de Clouseau.

Foi então que a minha mente explodiu. Que nem uma bomba atómica.

Não é que Dr. Strangelove não seja cómico - é MUITO cómico. Mas é também muito negro e muito profundo. O Inspector Clouseau tinha como missão pura e simples fazer-nos rir. Ninguém tem de pensar em nada a ver os filmes da saga Pink Panther - e ainda bem. Já a missão de Dr. Strangelove era provar que nenhum tema é negro ou perigoso demais para ser comentado pela comédia. Pelo contrário - quanto mais negro, perigoso e temível for o assunto, mais importante o papel da comédia.

Feito em 1964, em pleno momento de paranóia de iminência da Guerra Nuclear entre América e União Soviética, o filme é baseada num livro sério - Red Alert, de Peter George. Kubrick começou a trabalhar a adaptação como um filme sério sobre o terror iminente da Guerra Nuclear até ter conseguido perceber o ângulo cómico por trás da possibilidade de duas nações assegurarem a destruição total uma da outra - e talvez do próprio planeta. E é verdade: há um absurdo nas tendências auto-destrutivas da humanidade, e não há momento melhor para resumir isso do que este: numa reunião de crise, o Presidente americano - um dos três papéis interpretados por Peter Sellers no filme - separa uma cena de pancadaria entre um general americano e o embaixador soviético dizendo aquela que, para mim, é das melhores deixas de sempre da História da Comédia: “Gentlemen, you can’t fight in here. This is the War Room.”

O romance, baseado na tensão de um momento em que a Guerra Fria poderá tornar-se Quente, passa-se em salas de guerra e gabinetes onde coisas muito sérias são ditas. No filme, Kubrick decide acrescentar a personagem de um potencial criminoso de guerra nazi que serve de consultor do governo americano, o Dr. Strangelove, que tem uma teoria alucinante sobre enfiar os cidadãos mais fortes e puros em bunkers subterrâneos até a radiação passar.

Sellers faz ainda mais um papel no filme - Lionel Mandrake, major britânico da força aérea que se torna no confidente de um militar paranóico, Jack D. Ripper, interpretado por Sterling Hayden, que acredita piamente que os comunistas vão destruir a América juntando flúor na água canalizada e destruindo os preciosos fluidos corporais dos cidadãos americanos. 

É tudo maravilhosamente bem escrito, interpretado e realizado em Dr. Strangelove, um filme que nos faz rir enquanto o mundo se desmorona à nossa volta. É um pesadelo cómico, tão opressivo como hilariante, um doce apocalipse em que cowboys cavalgam bombas e o fim do mundo ocorre ao som de We’ll Meet Again.