Purple Rain

Purple Rain ★★★★★

Há um episódio de Ficheiros Secretos em que Mulder e Scully estão a debater um fenómeno estranho que envolve a chuva de substâncias estranhas que podem assumir várias cores. Basicamente, quando Scully questiona Mulder sobre uma eventual chuva púrpura, Mulder responde, espirituoso: “Grande álbum, filme profundamente falhado”.

Quer dizer: sim, e não, caro agente Fox Mulder. Pode um filme com falhas, ainda assim ser um filme da vida de alguém? Eu acredito que sim. Acredito que a maneira como um filme nos toca pode estar para lá das suas falhas - e que até mesmo as suas falhas se podem tornar parte da mística e da razão porque adoramos um filme.  O caso em estudo esta semana é precisamente Purple Rain, de 1984. A estreia de Prince no Cinema, num filme realizado por Albert Magnoli no auge da popularidade do génio de Minneapolis.

Purple Rain - que na sua estreia portuguesa se chamou, vá-se lá saber porquê, Viva a Música - é um projecto obsessivamente pessoal de Prince. O tipo de filme em que, claramente, a sua estrela principal ditou as regras - independentemente delas serem ou não boas ideias. Assim sendo, vamos já tirar do caminho as coisas que não são exactamente boas ideias em Purple Rain. OK - Prince podia não ser o melhor actor do mundo. Mas também não era o pior - o carisma faz maravilhas por ele, neste filme. 
Depois temos a estranha e algo esquizofrénica combinação entre melodrama familiar e romântico pesado e comédia chalupa. E há clichês sobre pais e filhos e traumas e superação - mas peguemos em tudo o que Purple Rain tem de mais desastrado ou banal e façamos o favor de o ver à luz - púrpura - do tipo genial que era Prince. E o caso muda de figura.

Muda de figura porque as coisas boas que Purple Rain tem valorizam as menos boas. Os números musicais são uma delas - são alguns dos melhores, musical e visualmente, que já foram postos num filme. E mesmo que a história seja previsível, a maneira como estas canções extraordinárias a contam tem o seu quê. Como quando, em desgosto amoroso dilacerante, Kid comove toda a gente com The Beautiful Ones. Ou quando a sua fúria e frustração e descida ao fundo do poço, são transformadas na sórdida e suja canção Darling Nikki. Ou no momento de luz e redenção absoluta em que tudo se resolve quando, finalmente, Kid canta uma canção chamada Purple Rain, deixando toda a gente e mais a mulher que ama, sem palavras.

É por isso que é redutor dizer que Purple Rain é um bom disco e um mau filme. Não é um mau filme - é um filme com uma história tão banal quanto os dramas da vida o são, e muito do que ali se passa é baseado na vida do próprio Prince. Eu diria que, feitas as contas, é um filme bastante brilhante: é o sonho de um artista que pode perceber mais de música do que de cinema, mas que ninguém pode acusar de não ser inteiramente sincero. Tudo o que ali está vem das entranhas e encontra boa tradução visual nas câmaras do realizador Albert Magnoli. Lembro-me que conheci a banda sonora de Purple Rain antes de ver o filme e que quando vi o filme pela primeira vez, senti o que Mulder sentiu: o disco é melhor. Depois o tempo passou e revi uma edição restaurada e remasterizada do filme, aquando do seu aniversário, e foi ai que percebi verdadeiramente o quanto gosto do filme. O quanto as canções e as imagens casam bem, o quanto o carisma de Prince e do resto do elenco - incluindo Wendy e Lisa dos Revolution e Morris Day, da banda The Time - conseguem elevá-lo a um dos meus musicais favoritos de sempre. Ajuda ser fã de Prince? Ajuda. Mas há aqui Cinema e uma energia contagiante em estado puro que me deixa bastante feliz.