Scott Pilgrim vs. the World

Scott Pilgrim vs. the World ★★★★★

Ao terceiro episódio desta rubrica, damos um salto no tempo. Os filmes que formam uma vida não precisam de estar todos num passado distante. Numa altura em que é cliché dizer que já tudo foi inventado, não há melhor sensação do que uma pessoa ser surpreendida por um filme que ousa ser novo. E com 10 anos de existência, a verdade é que continua novo. O filme da minha vida de hoje é de 2010. Chama-se Scott Pilgrim Contra o Mundo e é realizado por Edgar Wright. Ah - e está na Netflix, o que significa que, mal acabem de ler isto, podem logo ir vê-lo.

Antes de ser um filme, Scott Pilgrim é uma colecção de 6 livros de banda desenhada absolutamente brilhantes, escritos e desenhados por Bryan Lee O’Malley. Os comics, uma crónica contagiante sobre passar de jovem a adulto no novo milénio, fundiam comédia, romance, cultura pop, estética de manga, videojogos, rock n roll. São tão divertidos e rápidos que só havia um realizador capaz de os transformar em cinema - o génio britânico Edgar Wright, também ele cronista veloz da maneira como a cultura popular e as nossas vidinhas se cruzam intimamente, na clássica sitcom Spaced ou em filmes como a paródia de zombies Shaun of the Dead, a paródia de policiais Hot Fuzz ou a paródia de fitas de apocalipse World’s End. 

Em Scott Pilgrim Contra o Mundo, com Michael Cera e Mary Elisabeth Winstead, temos então a história épica de um jovem baixista numa banda de garagem, os Sex Bob-Omb e da sua conturbada história de amor com uma entregadora de encomendas da Amazon, Ramona Flowers - uma rapariga com quem ele sonhou e que, afinal, existe. Entre os dois e um futuro feliz e risonho estão os cinco ex-namorados vilões de Ramona e o filme - tal como a BD - estrutura os combates entre Scott e eles como se a vida fosse um videojogo, com vários níveis. E essa é parte da mística desta espécie de desenho animado vivo com gente. Scott Pilgrim Contra o Mundo é um bombardeamento de cores, sons, música, efeitos visuais. A montagem é rápida, as referências são em rajada - tanto assim que eu diria que não se apanha tudo sem ver o filme, pelo menos, umas três vezes. O talento de Edgar Wright está numa proeza que raros conseguiriam - num filme tão explosivo, louco, colorido e saturado de referências, ele consegue que as personagens sejam de carne e osso e tenham alma. Lembro-me de ver a ante-estreia do filme boquiaberto, no Festival de Cinema do Estoril, em 2010 - a primeira vez que o vi passei grande parte do tempo a questionar-me “mas como é que ele consegue fazer isto? Como é que eu estou tão pasmado com a loucura de sons e imagens, como é que estou a rir-me tanto com isto, e ao mesmo tempo tão tocado pela história destas personagens?”

E isso é Edgar Wright, senhoras e senhores. Que, ainda por cima, é um tipo tão porreiro que, quando veio passar férias a Portugal há uns anos, e depois de várias pessoas terem tido a gentileza de lhe bombardear o Instagram com mensagens a dizer “vai jantar com o Markl, é um geek português que tens de conhecer”, ele deu-se ao trabalho de me mandar uma mensagem directa a dizer “as pessoas não param de me dizer que tenho de te conhecer, eu desta vez já não tenho tempo mas quando voltar, está combinado”. Desde então trocamos mensagens de vez em quando - quando um tipo tão grande acumula ser um tipo tão fixe, é um milagre. Portanto, prestem-lhe a devida homenagem e façam a vocês próprios o favor de ver Scott Pilgrim Contra o Mundo.

Quando a canção de Beck, Ramona, vos banhar a alma no fim do filme, de certeza que já vão querer vê-lo outra vez.