The Evil Dead

The Evil Dead ★★★★★

Uma parte considerável dos filmes da minha vida, conheci-os através da televisão. E durante algum tempo, foi assim com os filmes de terror - género do qual sou grande fã. Embora, nos meus verdes anos, o terror me assustasse como o raio. Eu tremia de medo do videoclip de Thriller, de Michael Jackson, com as transformações em lobisomens e em zombies. Mas, vistas bem as coisas, uma pessoa assustar-se com filmes de terror... - é um bocado essa a ideia, não é? Foi isso que me fez evitar ver O Exorcista na TV, quando tinha para aí 14 anos. Mas quando Evil Dead, de Sam Raimi, passou numa sessão televisiva nocturna, tardia, uns anos depois - eu estava lá. Com o medo de quem se prepara para entrar numa casa do terror de uma feira.

Feito em 1981, Evil Dead é daqueles filmes que ditou as regras de muitos que se lhe seguiram. A simplicidade da coisa é perfeita: há um grupo de amigos, jovens inconscientes, que vai passar um fim-de-semana numa cabana abandonada na floresta. Lá dentro encontram um livro amaldiçoado - o Necronomicon! - cuja leitura acorda um mal adormecido no bosque e que vai transformando os jovens amigos, um por um, em horrendos, desfigurados e incansáveis demónios mortos-vivos. Até sobrar um - Ash Williams, interpretado por Bruce Campbell, que praticamente enlouquece a fazer frente às criaturas horrendas que, horas antes, eram os seus queridos amigos e namorada.

Evil Dead é um filme super imaginativo: feito com tostões, todo ele é imaginação em face da falta de meios. A maquilhagem é grotesca, há próteses de cabeças e outros membros voando pelo ar, e o ambiente consegue ser inquietante e, ao mesmo tempo... cómico. O sentido de humor ajuda, quando se tem poucos meios - e isso explica Evil Dead 2 - A Morte Chega de Madrugada, também realizado por Sam Raimi, em 1987.

De novo com Bruce Campbell no papel de Ash, o que é divertido em Evil Dead 2 é que é basicamente um remake do primeiro filme. Só que, para além do terror - e talvez mesmo POR CIMA do terror, Evil Dead 2 é uma comédia hilariante. É quase comédia física daquela do tempo do cinema mudo, só que com mortos-vivos, demónios e litros de sangue. Só para terem uma ideia, numa das cenas, um olho salta a uma das criaturas e vai direitinho pelo ar cair na goela de uma senhora que está a gritar. Terrível. E se isto não vos vende Evil Dead 2, há o momento em que o Mal possui... a mão do herói. Apenas a mão. E a mão, a filha da mãe da mão, começa a partir pratos na própria cabeça de Ash.

Já vi esta cena dezenas de vezes. Choro sempre a rir. Em 1992, o realizador Sam Raimi, já com créditos firmados em Hollywood em filmes como Darkman, com Liam Neeson, conclui a trilogia com o épico delirante - e mais caro - chamado Army of Darkness. Desta vez o pobre Ash, reconstruindo a sua vida como funcionário de um supermercado, acaba catapultado para a Idade Média onde o Livro dos Mortos, o Necronomicon, acorda todo um exército de Demónios Mortos-Vivos.

Evil Dead - um franchise que lançou não apenas o seu realizador, Sam Raimi, mais tarde realizador de Homem-Aranha, lançou também a sua estrela, o herói da série B Bruce Campbell, e também o futuro realizador Joel Coen, dos Irmãos Coen. Ele foi um dos responsáveis pela montagem frenética e criativa do primeiro filme.
O que me apaixona em Evil Dead não é só a vertigem infernal de terror - é a maneira cómica como o herói, Ash, a enfrenta. Como qualquer um de nós na situação dele, no início a coisa mete-lhe um medo do cacete; mas à medida que a saga avança, o que é maravilhoso é ver um homem - que a dada altura usa uma serra eléctrica no lugar da mão que perdeu - a lidar com hordas de zombies com o aborrecimento com que qualquer um de nós lida com um enxame de mosquitos. Ash está apenas farto de criaturas que o querem matar. E por isso já nem tem medo. Está só chateadíssimo. E isso é hilariante, porque ninguém tem essa postura nos filmes de terror... a não ser Ash.

Costumo recomendar a saga Evil Dead para pessoas que têm uma relação complicada com o cinema de terror. É provável que haja momentos que as façam saltar, mas haverá muitos momentos que as vão fazer rir. É uma porta divertida e criativa para descobrir o mundo do terror e a trilogia ideal para ver toda seguida com um grupo de amigos e talvez uns copos à mistura. É claro que é melhor deixar a pandemia abrandar antes de juntar os amigos - mas sincronizem o filme e vejam à distância. A saga Evil Dead é uma montanha russa e uma colecção de três filmes (mais uma série de TV recente, que também vale a pena) que pode ser definida na palavra favorita do herói relutante da saga, Ash: “Groovy!”

Sim. É mesmo groovy como o raio.