Jurassic World

Cópia infiel

por Gustavo Vinagre

Após quatorze anos do lançamento do terceiro Jurassic Park, a estréia de Jurassic World (quarto filme da série) chegou com o enorme peso de reinventar a franquia para conquistar novos fãs, sem desagradar os antigos. O filme (que começou sua estratégia de marketing mais de um ano antes do lançamento), levantou muitas expectativas desde o trailer – é possível senti-las nos comentários do Youtube – sobre a qualidade das imagens, onde predomina a tecnologia CGI, em lugar dos clássicos animatronics, os bonecos usados em boa parte dos filmes de monstros antes desses efeitos digitais de última geração. Alegava-se que a artificialidade dessa tecnologia tiraria a sensação de “realidade” vivida no primeiro filme.

Em Jurassic World, vinte anos após o acontecimento do primeiro filme – e ignorando as pouco relevantes histórias de Lost World (1997) e Jurassic Park III (2001), em que o parque não existe, apenas os dinossauros soltos em ilhas próximas à Ilha Nublar – o parque está ativo, e funcionando plenamente, com uma visitação de 20 mil pessoas por dia. Ele é o que John Hammond (Richard Attenborough), criador do primeiro parque, sonhava. Não é mais um passeio pré-inaugural, um teste para poucos escolhidos como no primeiro filme: o parque se tornou diversão para as massas. Diante disso, Claire (Bryce Dallas Howard), gerente do parque, precisa criar uma atração que volte a chamar a atenção do público, que vem decaindo. É criado um dinossauro híbrido de Tiranossauro Rex e Velociraptor (as divas do parque e da franquia), entre outros seres que ajudam a dar características peculiares ao novo monstro Indominus Rex, um Frankenstein de última geração. Claro, tudo sai de controle, e Claire vai precisar da ajuda do adestrador e aliado dos raptors Owen (Cris Pratt), ter que lidar com a visita dos seus sobrinhos que não vê há anos, e com a máfia da guerra que quer utilizar os dinossauros como arma anti(ou pró?) terrorismo.

O filme é um grande paradoxo, ao mesmo tempo uma homenagem, quase um remake do primeiro filme, e outra coisa completamente diferente. Interessante notar como é pontuado, cena a cena, por citações explícitas ao primeiro, como se estivesse dizendo: “você não queria ver a mesma coisa? Então toma”. E esse conflito do espectador, sempre buscando ter a mesma sensação de encantamento do passado, também é transportado para os conflitos de alguns personagens. É o caso do jovem Zach, um dos sobrinhos de Claire, que deixou uma namorada na cidade onde vive, mas que está sempre observando a foto dela durante os passeios pelo parque, ou olhando fixamente outras meninas (buscando nelas algo da original?). O jovem simplesmente ignora os dinossauros (afinal, criaturas já tão familiares), e nós espectadores somos incapazes de perceber que estamos diante de uma nova história. Sejamos realistas: trata-se de uma franquia em seu quarto filme, é impossível não fazer comparações ao original, e o espectador quer é passar pela experiência original, voltar para o útero da mãe. Mas será possível reconstruir a mesma sensação de ver os dinossauros vinte anos depois de que vimos o original de Spielberg, vinte anos em que os efeitos especiais se banalizaram tanto a ponto de se tornarem item quase obrigatório para a boa bilheteria de um filme?

Jurassic World é consciente de que estamos num mundo com um excesso de imagens, em que o limite entre o real e a representação está ficando difuso. “Me manda fotos suas todos os dias para eu ver se você fica diferente”, pede a namorada de Zach, antes de ele ir viajar por apenas cinco dias, para o parque administrado pela tia. O excesso é reforçado pelo próprio visual do parque, que é o de qualquer parque temático, brega, cheio de logos de patrocinadores e imagens holográficas dos próprios dinossauros poluindo o ambiente por todos os lados. O filme joga com isso de maneira evidente, demonstrando o tempo todo que ver é sempre um ato relativo – e extremamente banalizado. As selfies proliferam pelas ruas cenográficas do parque, que parece mais uma imitação da ideia de um parque do que um parque em si – não seria quase obrigação de um parque parecer um parque antes de ser um parque?

E um filme, não deve parecer um filme? A verdade é que o primeiro Jurassic Park foi um dos pioneiros no uso de CGI; a diferença é que nele prevalecia o suspense, e o CGI era usado quando já não era possível usar os animatronics (que também eram usados quando já não era possível “esconder” os dinossauros). Os efeitos especiais eram os meios para conseguir um fim claro: contar uma história que devia prender o espectador pelo suspense. Na verdade, a sensação realista se dava porque os dinossauros quase não apareciam, eram inferidos – um tremor na água indicava passos da T-Rex, ou sombras indicavam a aproximação de um raptor. Em Jurassic World não há mais suspense, há horror absoluto. Neste mundo extremamente gráfico pós-internet, há a necessidade e a obrigação de se ver, o tempo todo. Por isso, a tal sensação de que estes dinossauros são mais artificias que os originais, enquanto eles só estão mais expostos aos nossos olhos, ao julgamento do espectador. A espetacularização da forma em detrimento do conteúdo é a regra do parque, e deste tipo de cinema. Os efeitos especiais não são mais os meios, e sim o fim.

Isso se resume muito bem numa cena em que um raptor é despistado pela imagem holográfica de um dilofossauro – dinossauro que soltava veneno no primeiro filme – fazendo uma participação especial sem realmente aparecer no filme (mas quem realmente aparece no filme? Questões infinitas). O raptor se assusta, depois se irrita, e depois percebe a ilusão do holograma e passa por cima dele. A ilusão é real enquanto dura, porém efêmera, e, para se manter, precisa ser constantemente trocada por outras formas, outras tecnologias. A relatividade da imagem é a premissa do filme, que começa com um superclose de duas patas gigantes e pré-históricas pisando na neve, para depois revelar que se tratava apenas de um pardal pousando num jardim. Essa consciência do filme como filme funciona quase como mea-culpa, ou como um comentário sobre os tempos. Mas isso realmente redime o filme? Não há resposta exata para isso. Estar consciente de sua lógica não parece, necessariamente, modificá-la. Talvez a postura da franquia fique mais clara nos próximos filmes, que já estão confirmados após o sucesso estrondoso de Jurassic World.

O embate entre passado e presente também permeia toda a história. O personagem Lowery (Jake Johnson) é um jovem que trabalha na área de inteligência do parque, e é uma espécie de metáfora da nostalgia dos fãs (como bem apontou o colega Enock Carvalho em uma conversa virtual). Ele usa uma camiseta que comprou online com o logo do parque antigo – e Claire o reprime por isso – além de colecionar bonequinhos de dinossauros de plástico diante de sua mesa – como boa parte dos jovens que cresceram nos anos 1990. Em uma cena, ela joga os bonequinhos de Lowery no chão, deixando claro mais uma vez que não há espaço para nostalgia neste filme. Em contraponto, para Claire os dinossauros são apenas números em tabelas. Sua relação com os animais é puramente virtual: ela nunca sequer viu o monstro que ajudou a criar, tratando-o como ações na bolsa de valores. Claire é a própria lógica do digital – a mesma lógica que regula o mercado de blockbusters e o CGI. A postura diante da nostalgia de Lowery volta em outra cena, quando ele se despede de sua colega de trabalho, Vivian (Lauren Lapkus), que está prestes a fugir de helicóptero do parque. Ele tenta beijá-la na boca, e ela o afasta, numa cena que resulta cômica e anti-climática. Este Jurassic – que retrata as mulheres de uma maneira diferente dos outros filmes – parece querer dizer “Isso ficou nos anos 1990, Não queremos mais filmes desse jeito”. Ao pobre Lowery é negada qualquer lógica que se assemelhe ao que ele tinha em mente, assim como a nós espectadores é negada a nostalgia: simplesmente não existe tempo para esses sentimentos diante da magnitude do parque e da velocidade dos acontecimentos. Jurassic World passa por cima da gente.

O filme propõe, assim, uma reflexão sobre o monstro da tecnologia unida ao entretenimento e, por tabela, o monstro do CGI. Não é a toa que uma das características da Indominus Rex seja a camuflagem e não fazer seu corpo exalar calor. Ou seja: ela pode se fazer de invisível e incorpórea, fria – além de poder ser potencialmente tudo, uma vez que mimetiza, como já mencionado, as paisagens que percorre. Indominus é a própria natureza do digital, indomável, fazendo tudo supostamente possível diante de nossos olhos de espectador.

Outros exemplos povoam toda a história, como a bela cena em que centenas de braquiossauros, aqueles pescoçudos, são mortos pela Indominus. Cris Pratt anuncia “Ela está matando por esporte”. Os protagonistas se aproximam e observam o suspiro final de um dos bichos, um dos poucos casos de uso de animatronics no filme. A tecnologia está matando a tecnologia anterior – no caso, os animatronics – pela diversão, pelo entretenimento. Essa cena é a morte anunciada (tardiamente) dos animatronics, sendo substituídos inevitavelmente pelas tecnologias digitais. Além de fazer referência explícita ao primeiro filme, sendo uma cena algo similar à da diarréia do triceratops de Jurassic Park. Por coincidência ou de propósito, os animatronics de Jurassic World são bem menos críveis que os de Jurassic Park, revelando uma grande ironia: na ilusão da representação não existe uma tecnologia necessariamente melhor que a outra, existem tendências e expertise. No caso, fica nítido que o expertise está em decadência, pela pura e simples falta de prática. O CGI, pelo contrário, somado ao 3D, é mais palatável que nunca.

No final, Indominus se vê diante das duas principais partes que a compõem: T-rex e Velociraptor. Indominus se vê literalmente presa num remake do primeiro filme, necessariamente igual ao primeiro, mas completamente diferente, pela própria existência de Indominus, pela própria existência do CGI. Como na cena do original, em que as raptors combatiam a T-rex, agora é necessário que T-rex e raptors unam forças para combater esse arremedo das duas. Aí se revela o grande nada da pobre Indominus, uma criatura que carece de estrutura, de personalidade. Sua força, até então inigualável, sucumbe diante da nostalgia aos filmes passados, à mentirosa – porém “realista” – magia dos animatronics, de quando a ficção tinha limites definidos pelo aspecto físico e concreto de um boneco de borracha. Indominus sucumbe ao poder da própria história – em ambos os sentidos desta palavra: a história biológica dos dinossauros, uma vez que Indominus é de uma espécie que nunca existiu – portanto, um paradoxo, Indominus é pré-histórica e é completamente nova, recente, futurística (a ilusão cinematográfica não existe desde a ilusão das sombras na caverna de Platão?); e história no sentido de relato, pois ela sucumbe ao poder do imaginário construído pelo filme original. Indominus sucumbe ao relato, assim como qualquer CGI, 3D, 4D, ou mesmo os animatronics, jamais serão mais que mero artifício sem uma boa história.

Jurassic World mostra como a evolução tecnológica voltada para o entretenimento é usada como área de teste para a tecnologia usada em prol da guerra. Indominus e os demais dinossauros são entretenimento de massa, mas em breve serão armas de guerra. Assim como toda tecnologia parece passar pela mesma lógica. Ao longo do filme, a guerra contra Indominus é retransmitida pelos próprios militares que fazem a segurança do parque. Existem as câmeras de vigilância do parque, câmeras em seus capacetes, e outras tantas tecnologias que podem ter estado ou que ainda serão associadas ao entretenimento em algum momento, servindo como transmissores de uma guerra que nem sempre é vivida pelos personagens, mas acompanhada através de telas dos mais variados monitores. Associada à tecnologia, a guerra vira imagem. Em Jurassic World praticamente não existe espaço para um embate entre um humano e um dinossauro, não há mais cenas de perseguição intimistas e cheias de suspense como a da cozinha com as duas crianças e dois raptors em Jurassic Park. Aqui, o massacre é a nível mundial – como indica o título – com milhares de dinossauros e de pessoas se digladiando como num campo de batalha (pessoas perdidas entre imagens?); assim como o lançamento do próprio filme é massacrante, tendo se tornado um dos mais rentáveis da história apenas no primeiro fim de semana nos cinemas. A cultura de massas e as armas de destruição em massa são equiparadas. Para definir em uma imagem do próprio filme, Jurassic World aponta para um mundo que é como a gaiola de ferro gigante e redonda onde estão os pterodáctilos (os dinossauros voadores): uma bomba relógio prestes a explodir nas mãos de um milionário que acha que governa o mundo, mas não sabe nem dirigir o próprio helicóptero, e de onde podem surgir muitos e muitos monstros no caso de qualquer acidente.