Jurassic World

Por trás dos panos

por Pedro Henrique Ferreira

Muitas das atuais sequels de trilogias hollywoodianas que fizeram sucesso de público no passado chegam aos cinemas já envoltas por uma mística trazida pelo imaginário dos filmes anteriores. Por um lado, isso faz delas típicos produtos de fácil exploração comercial, pois o sucesso do original já é seu próprio marketing. Por outro, o original é também um grilhão, visto que as expectativas comerciais, artísticas e do público devem ser preenchidas. O diretor que chega à quarta sequência da franquia se vê pressionado por esta dupla condição. Não à toa, a saída de muitos deles seja a trama metalinguística (p.e.: Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas; Pânico 4; Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, Missão Impossível: Protocolo Fantasma). Não raras vezes, a narrativa trata de um novo panorama, mas ao mesmo retoma o sentido originário dos primeiros filmes como panaceia.

Jurassic World – o Mundo dos Dinossauros emerge deste espectro, e mesmo o tema faz remissão à própria situação da franquia. Se, antes, o parque de dinossauros era um projeto incipiente, ele tornou-se agora um complexo monstruoso, funcionando de forma estável e trazendo milhares de visitantes. As atrações não são mais só os animais vivendo em seu habitat natural, mas também os jogos, passeios e performances ao redor, além de hotéis, restaurantes, lojas e outros estabelecimentos com a marca do empreendimento. Enquanto, nos demais filmes, os dinossauros eram uma recriação genética dos seres pré-históricos que os homens queriam domar, agora o desafio passa a ser inventar um novo dinossauro maior, com mais dentes. A inversão faz paralelo às novas exigências às quais a sequel é submetida: atualizar o filme de aventura, tornando-o mais atraente para o público moderno (não esquecer a ironia do filme ao colocar a necessidade de reinvenção como pano de fundo de um projeto militarista norte-americano), operando no interior de uma franquia já estabelecida.

Certos traços de estilo na direção de Colin Trevorrow são notáveis desde o princípio do filme: a clareza da escrita, visível na forma como os personagens são introduzidos em poucos takes; a ausência de ambiguidades nos personagens e no lugar que cada um ocupa na trama; o excesso de diálogos e argumentações, e a maneira como idéias são colocadas impunemente na boca dos personagens, tornando-os, mais do que estereótipos, porta-vozes de uma ideologia ou forma de encarar a realidade; a articulação de pontos-de-vista que faz com que um fato único (o dinossauro inventado geneticamente foge de sua cela) se desdobre em vários conflitos éticos (liberdade versus domínio; família versus trabalho; aventura versus academicismo; ambientalismo versus militarismo; espetáculo versus realidade).

Estas múltiplas dimensões da trama, impressas na jornada dos personagens, torna o filme um tanto nebuloso, mais difuso que neutro. Como os três longas-metragens anteriores da franquia, Jurassic World reafirma a vitória do ecossistema sobre a noção de progresso e controle do ser humano, interpretando a posição do homem como a de inventor de monstros, restando a ele unicamente a tarefa ética de libertar aquilo que ele mesmo aprisionou (numa das grandes cenas do filme, o Tiranossauro precisará ser solto para resolver o conflito em parceria com os demais dinossauros). De forma nada protocolar, o filme repete também um diapasão bem tradicional dos filmes de aventura dos anos 1990, dentre os quais o primeiro Jurassic Park: a aventura é o elemento de resolução da ressaca familiar, seja a encarnada na distância recuperada entre os irmãos, no aprendizado maternal da gerente (Bryce Dallas Howard) ou na descoberta do amor por Owen (Chris Patt).

Como sequel exemplar, os valores sustentados pelos primeiros filmes da trilogia são resgatados. No entanto, um novo dado é introduzido: o exagero do espetáculo é também um criador de monstros. É aqui que a porca torce o rabo, e o filme se torna um tanto paradoxal, em posição curiosamente encarnada por uma figura um tanto ridícula – o “alfa” – e sua igualmente contraditória profissão de domador. Afinal, se você se posiciona moralmente contra a desumanidade do espetáculo no trato com seres vivos, por que afinal assume para si a função de domá-los?

Em princípio, a resposta é: para se criar um vinculo afetivo e de comunicação com o outro. Mas quando a crise se instaura, o filme termina adotando certo cinismo: “Isto acontecerá com ou sem você”, diz o militarista. Em vez de manter os princípios e enfrentar o adversário, passa-se ao lado dos militares e torna-se ao mesmo tempo um facilitador (aquilo que desde sempre o foi), e alguém para amenizar o sofrimento dos velociraptores na sua existência como ferramentas. A posição moral representada por essa espécie de alter-ego é frágil, muito mais um adereço para sedução do que com efeito uma disposição a levar sua luta até a exaustão. Nesse sentido, o filme é também vítima do não-lugar moral que passa a habitar entre a crítica ao espetáculo ostensivo – o mesmo que cria monstros de CGI inimagináveis sem perceber a que finalidade e a quais custos – e a utilização deste espetáculo como método. Um novo dinossauro com mais dentes, perfeitamente desenhado em CGI, surgiria mesmo sem Trevorrow – um outro sequel, ou mesmo um outro filme de aventura difundido militarmente pelo mundo. O papel do artista hollywoodiano, o filme parece dizer, é também amenizar os estragos, e, por outro lado, lembrar, na medida do possível, o dominador de sua própria fragilidade diante da natureza.

A assertiva é surpreendente, principalmente pelo lugar de onde vem. Jurassic World tem o mérito realmente de descortinar todo um teatro que existe por trás das grandes franquias da cultura pop norte-americana, mas suas propostas reais diante desse dilema são elusivas. Sintomaticamente, a conclusão dos conflitos ao qual dedicou tanta clareza terminam apressadas, anticlimáticas (o ato final, ou as sequências de resolução familiar, são pura e simplesmente pífios). Faz pouco mais de seis anos que um outro filme, com o qual este tece pontos de contato e que passará a ser reconhecido cada vez mais como um dos bastiões do tema, oferecia uma resposta mais adequada, não obstante mais desesperada: no Avatar de James Cameron, o sujeito precisa se unir ao povo oprimido e enfrentar corpo-a-corpo sua própria civilização. A arte hollywoodiana – esta do excepcional heróico, dos CGIs grandiloquentes – serve única e exclusivamente para unir as tribos que não se falam e fazê-los acreditar que esta revolução contra o opressor ainda é possível.