The Big Short

Negócios à parte

por Raul Arthuso

“Quando passar – Ah, eu vos digo, irmãos, quando passar… Eu vejo a luz e eu vejo o verbo, miserável pecador! Eles morreram no Egito; passou gerações. Era um homem rico: o que é ele agora, ó irmãos? Era um homem pobre: o que é ele agora, ó irmãs?”

Reverendo Shegog em O Som e a Fúria, de William Faulkner

A Grande Aposta é um filme didático. Já no prólogo, o narrador Jared Vennett (Ryan Gosling) afirma categoricamente: “Acredito que muitos de vocês não sabem o que houve. Mas alguém sempre pode explicar. Afinal, você não é tão burro”; frase seguida por um banqueiro afirmando que as instituições financeiras americanas são fortes, fala que é interrompida no meio da palavra strong, num gesto ostensivo de montagem apontando a farsa do discurso do mercado financeiro. Mas é uma intervenção mais à frente, de Vennett, que coloca nos trilhos a pulsão do filme: “Wall Street adora utilizar termos confusos para fazer você pensar que só eles podem fazer o que eles fazem. Ou melhor ainda, para os deixar em paz.” Para além da carga negativa que a palavra “didatismo” tem quando associada a uma obra cinematográfica, A Grande Aposta faz do didatismo (dídaksis = lição) uma arma de desconstrução do discurso decodificado, essa forma sutil e poderosa de assegurar a dominação. Pois, instruir é mostrar o erro para evitar sua repetição.

Desde o início, o filme investe na desconstrução da iconografia do mercado financeiro. O discurso econômico é sistematicamente desestabilizado pela montagem, o ritmo de interdições e cortes rápidos, de cenas que expõem frontalmente a mecânica da “ciência” dos investidores de forma banal, esvaziando a potência das palavras, tornadas aqui logomarcas de um modo de existir num determinado local (Wall Street) e num determinado tempo (o atual). As palavras são uma chave de pertencimento, uma contrassenha. Wall Street – e tudo que a envolve – é apresentada como uma imensa fachada, desde os bancos que permitem apenas o acesso ao lobby para aqueles que não têm cacife, até os empreendimentos revestidos de uma certa pomposidade a fim de esconder a terra arrasada do negócio imobiliário. A torre de blocos de madeira que Jared usa em suas apresentação para Mark Baum (Steve Carell) ganha uma conotação mais forte, pois o sistema representado ali não é apenas uma construção que desmorona e vira lixo; formada por blocos com siglas que representam a liquidez de cada tipo de hipoteca, eles não passam de pedaços de madeira com letras escritas, apenas um brinquedo infantil travestido. Esse é o jogo do filme com relação à representação: o mercado financeiro é uma fraude, pois exibe a superfície, o código, a linguagem, mas esconde as entranhas. Isso fica explícito nos interlúdios de explicação dos termos financeiros, quando uma pessoa famosa, sem ligação com o mundo dos negócios e sem respaldo intelectual da alta cultura – como Selena Miller e Anthony Bourdain –, cria outra representação, relativa à comida ou ao jogo de azar, para tornar o significado do termo em “economês” mais palpável. A palavra mais ouvida nesses momentos é shit: tanto faz CDO’s ou CDS’s; no fundo são apenas lixo numa embalagem valiosa.

Mas é nas personagens que a inversão desse imaginário se concretiza. O prólogo mostrando, no fim dos anos 1970, a operação financeira que catalisou, trinta anos depois, a crise financeira mundial, tem como personagem principal um homem gordo, baixinho, com óculos de armação grande, falando com sotaque carregado, quase aos berros, e riso tosco; uma figuração muito distante do fascínio yuppie dos altos executivos no cinema dos anos 1990 e 2000. Ainda mais distante é o grupo de personagens focados pela trama. Michael Burry (Christian Bale) está mais para herdeiro de Raymond Babbitt (Dustin Hoffman), de Rain Man, que para gênio do sistema: isolado em sua sala, ouvindo heavy metal enquanto batuca a mesa com suas inseparáveis baquetas, tem problemas de sociabilização, fala enrolado e tem o olhar distante; por sua vez é ele quem enxerga a falha nos números e prevê o colapso econômico. Burry é apenas o primeiro da galeria de nerds e weirdos que descobriram a falha no sistema: economistas de fundo de garagem que moram com os pais (John Magaro e Finn Wittrock), um rebelde que decide se afastar da civilização e cultivar a própria comida (Brad Pitt), um grupo liderado por um executivo neurótico que não consegue conter as próprias emoções e parece deslocado do sistema financeiro a ponto de querer ver a economia ruir para mostrar que todos estão errados (Steve Carrell, protagonista da versão americana de The Office, que teve alguns episódios dirigidos por Adam McKay). A vingança dos nerds atingiu Wall Street: os idiotas são visionários e os bonitões cools – que têm em Jared Vennett um anverso – desfilam ternos caros em festas desmedidas de gastos excessivos com uma histeria estúpida, embevecidos de sua própria coolness, o que os impedia de não enxergar aquilo que qualquer um poderia ver – principalmente quando se trata de especialistas.

É a frágil balança entre idiotia e esperteza que sustenta o tom do filme. O mundo fechado de Wall Street está, aqui, entre a estupidez generalizada do The Office e a arrogância de O Lobo de Wall Street. Em A Grande Aposta, a inversão de papéis confunde os valores: o mundo das personagens está em ebulição e o equilíbrio só pode ser reestabelecido quando idiotas e espertos assumirem seus lugares novamente. A crise se insere perfeitamente na trajetória de McKay: seus filmes trazem no cerne um mundo em transformação, habitado por idiotas incapazes de perceber que sua idiotia só os deixa mais distantes do equilíbrio que os fazia existir antes da mudança. Mas a substância de seus filmes anteriores é uma auto-ironia inscrita no corpo dos atores, especialmente Will Ferrell, cujos trejeitos, expressões e gestos parecem desmoldar as certezas patéticas das personagens, e coloca-se disponível a novo pathos. O corpo-matéria de Ferrell pertence a um sistema de valores em devir. Então, a ambiguidade implícita no corpo dos atores se torna explícita neste mais recente filme, pois a crise dos valores – e Wall Street é essencialmente um palco de narrativas sobre valor – se faz presente na dicotomia de idiotas e espertos (a grande preocupação do braço direito de Mark Baum é saber como Vennett vai passá-los para trás), nerds e cools, apocalípticos e integrados…

Por outro lado, as inversões e desconstruções de A Grande Aposta não caminham sem suas próprias contradições. Afinal, dentro desse jogo entre quem é o esperto e o idiota, o filme não é uma comédia pastelão, e seus atores principais não são Will Ferrell, Paul Rudd ou John C. Reilly, mas Christian Bale, Ryan Gosling, Brad Pitt e um Steve Carrell que já tem um status completamente diferente de quando fez O Âncora. Uma contradição da mise en scène: Vennett termina o prólogo dizendo que os weirdos viram a falha no sistema fazendo algo que os outros nunca pensaram em fazer; “Eles olharam” afirma o narrador. Num filme disposto a mostrar esse gesto, é sensível que, menos do que mostrar como olhar, McKay mostra como eles olharam: as escolhas cênicas estão pautadas não pela observação, mas pela revelação. As cenas revelam negociações, falcatruas, transações de valores inimagináveis que ocorrem nas entranhas dos arranha-céus de Manhattan ao custo de disfarçar suas próprias negociações e contradições de um filme cool, bem engenhoso, cheio de boas ideias, abrindo com uma citação de Mark Twain, atores entregando um bom texto, mas que no fundo negocia com sua própria consciência a contradição embutida na trama: esses idiotas que enxergaram a crise do sistema não são tão idiotas assim a ponto de não aproveitarem esse brilhareco de esperteza e ganharem uns trocados de alguns milhões de dólares. Já os espertos não são tão idiotas: produziram um desastre social do qual saíram ilesos, resgatados pelo dinheiro de suas vítimas. “Nem lá nem cá: eis a crise de valores” sobra em meio a essa negociação, a derradeira lição – melancólica – de A Grande Aposta.