Naked ★★★★½

Naked é um filme perverso. Pra começar, logo no pôster, o protagonista Johnny está com a cabeça localizada entre um par de pernas semi-aberto, mas ele não olha para cima. Seu olhar parece distante, como se estivesse fitando o nada. Essa imagem, por si só, já resume boa parte do filme e das ideias que são exploradas em suas mais de duas horas de duração. O Johnny de Mike Leigh é um transeunte, um andarilho cuja principal função na trama é a de observar o caos do dia-a-dia. Mesmo quando ele fala, e isso não ocorre poucas vezes, está observando, e julgando silenciosamente não só as pessoas, mas as situações e o espaço que o cerca.

A primeira cena já te joga, sem dó nem piedade, pro centro da atração: somos introduzidos ao agente do caos, ao personagem sórdido que nos guiará durante a jornada intimista de Naked. Quando Johnny aparece pela primeira vez, a câmera retrata bem o que é seu universo: um beco sem saída, sufocante, onde ele é dono das pessoas, especialmente das mulheres (seria a violação uma forma masoquista de domínio, de poder estar perto de alguém e ter controle?), mas também é facilmente dominado. A câmera na mão, trêmula e inconstante, como se acompanhasse os passos bêbados do protagonista, incomoda, perturba, nos faz questionar porque é preciso tanto movimento em um espaço tão pequeno.

A resposta está na cena seguinte: Johnny entra em um carro qualquer e começa a dirigir madrugada adentro, até chegar numa modesta casa em algum lugar de Londres, já de manhã. O filme todo vai seguindo essa dinâmica de enclausuramento, fobia, e distanciamento, sem pedir permissão para o espectador. Às vezes Johnny é quem observa, às vezes é observado. Quando o golpeiam, há um plano geral, sem movimento de câmera, como se tivesse chegado a nossa vez de observá-lo se degradando, se corrompendo pelo excesso. Se Johnny é onipresente, uma espécie de Deus-observador, que está lá para vigiar a tudo e todos, menos a si mesmo, nós fazemos parte do espetáculo, mas o incômodo nem sempre vem através da repulsa. Às vezes nos incomodamos por sentirmos empatia por uma pessoa escrota, por entendermos suas motivações.

Uma das grandes virtudes de Naked mora na solução encontrada pelo diretor para confundir o espectador. Através da introdução do personagem Jeremy, uma das pessoas que cruzam o caminho de Johnny, Mike Leigh encontra um contraponto para o cinismo de seu anti-herói: e se existisse na trama um personagem como Johnny, só que mais extremista, quase uma versão caricata e disciplinadora dele? Se Johnny é o julgador silencioso, fica na teoria, Jeremy é o punidor, a versão diabólica do primeiro, que bagunça todas as questões morais do protagonista e as coloca em cheque: para ele, não existe o diálogo, e sim a disciplina, a ordem. Um pune enquanto o outro vigia. Os outros personagens apenas levitam em torno de suas ações ou inações.

Pedro liked this review