The Fisher King ★★★★½

Existem filmes que me deixam indiferente e outros dos quais é impossível não se deixar influenciar ou se levar pelas sensações, para o bem ou para o mal. Esse faz parte da segunda opção. Sério, o que esse filme não é? É um híbrido maravilhoso de alegoria, crítica social, romance e drama psicológico, daqueles filmes inspirados capazes de elevar uma carreira, ainda que nem sempre receba o devido crédito.

A primeira parte, em que conhecemos o mundo fechado e monocromático do personagem de Bridges, o locutor de rádio Jack Lucas, tem um tom de denúncia da questão da diferença de classes, exposição da realidade nua e crua de quem mora nas ruas, e soa como uma transposição das fábulas medievais do diretor Terry Gilliam para a Quinta Avenida em Nova York, o lar dos yuppies engravatados, e também de muitos mendigos, pessoas invisíveis do dia-a-dia, que dariam tudo para receber um pouco de afeto e atenção, um sinal de ajuda.

Parece um filme mais contido do Gilliam, mas na verdade é uma obra que se apropria da fantasia como um mote, um combustível do delírio, nesse caso afetado por um trauma vivido pelo personagem Parry, interpretado por Robin Williams, numa atuação que acabou se tornando assustadoramente mais real após sua morte em 2014.

Na história, Parry perdeu sua esposa, assassinada por um dos ouvintes do programa de rádio de Jack que, graças a um conselho mal dado, acredita ter sido o principal responsável pela situação. De certa forma, Jack também possui um trauma muito grande, mas em nível depressivo. Ele não vê mais motivo para viver e pensa em se jogar de um rio, até ser acolhido por Parry, daqueles acontecimentos do acaso que muda a vida dele, o faz se enxergar, e também ver o universo ao seu redor (e não mais seu mundinho fechado de gente rica) sob uma nova perspectiva.

Ao mesmo tempo, esse é um filme sobre fé, e sobre amor, sobre as coisas que importam. Por viver todos os dias na rua e passar por lugares de intenso movimento, Parry acaba se apaixonando pela figura de uma mulher, Lydia, que sempre vê comprando livros, e começa a enxergar o sentimento amoroso em tudo e em todos, sua vida se contagia por uma projeção, uma fantasia, porque é assim que ele vê o mundo, e mais especificamente as ruas nova iorquinas, como um refúgio para sonhos impossíveis.

A cena em que Jack arranja um jantar entre Lydia e Parry é o momento mais próximo de uma situação fofa e romântica que você vai encontrar em qualquer filme do cineasta, me remete até a algumas comédias do Peter Bogdanovich ou do Woody Allen, sendo Lydia uma personagem análoga aos papeis da Barbara Streissand nos anos 60 e 70, em que ela interpretava um tipo específico de mocinha desajeitada, interessada em livros e às vezes um pouco fora de sintonia com a realidade. Eu não conseguia parar de sorrir com a plasticidade dessa cena do restaurante, que, mesmo sendo uma parte mais leve do filme, é bem forte imageticamente. A iluminação da cena é bem forte, as cores são quentes, vivas, parece até que tá se passando na cabeça de alguém.

Gosto de como o filme contrapõe excesso de luz com escuridão, com sombras. A cena posterior mais parece um pesadelo, daqueles em que você corre, corre e não chega a lugar algum. Para Parry, não receber o telefone de Lydia era como acessar imediatamente seus maiores medos. Uma luz se acendia para outra se apagar, e só restava correr para aliviar a pior das sensações. Jack, por achar que tinha se livrado da culpa que o consumia, apertou um botão mágico e tentou dar um tempo para si, mesmo que para isso tivesse que retomar a seus velhos hábitos.

O filme acaba terminando de um jeito bem diferente de como começou. Se o cenário era sem vida, sem cor, e víamos tudo sob a perspectiva de um personagem preso num condomínio fechado, agora Jack estava preso num conto de fadas. Através da empatia tardia, Jack acabou descobrindo como é estar na pele do outro. É mais do que empatia, é quase como sentir as mesmas coisas, se ver numa realidade à parte. Há uma transferência de estado psíquico que acaba unificando as ações.

Acho que é muito sobre empatia, bondade, e também sobre pessoas que não se perdoam, não seguem em frente porque não conseguem. É o medo que paraliza.

Pedro liked this review