Breathless ★★★★

Acossado. Um filme que condensa perfeitamente as características do movimento que representa: a Nouvelle Vague. Logo no início, já temos uma sequência que apresenta o protagonista Michel Poiccard(Jean-Paul Belmondo) que é um cartão de visitas de Godard e quer dizer mais ou menos isso: "Eu cheguei pra mudar as regras desse jogo, quer vocês gostem ou não". As direções não fazem sentido, a iluminação é confusa, os cortes rápidos são esquisitos e tudo parece anti-intuitivo. Entretanto, o movimento e a estética são instigantes e a apresentação do personagem é mais do que eficiente. Não precisamos de muito tempo de tela para perceber que estamos lidando com um malandro que ao mesmo tempo é arrogante, charmoso e que desperta interesse.

Impulsionado pelo sentimento do novo, de transgredir com o jeito clássico e engessado de se fazer Cinema na época, Godard buscou seu estilo autoral se valendo de "jump cuts" em profusão, cenas filmadas com luz natural no meio da rua sem avisar ninguém, frames diferenciados como focar a nuca de Patricia(Jean Seberg) sem a menor preocupação em uma viagem de carro e a construção de uma narrativa não-linear, que se preocupa mais com os diálogos, o realismo e a construção de seus personagens, do que com contar uma história que entretenha aos moldes clássicos hollywoodianos. Isso significa sim dizer que seus filmes não são muito acessíveis. O espectador não muito acostumado vai estranhar bastante o molde que ele propõe.

Se Godard é um gênio ou um amador, eu não sei, mas sei que suas ideias foram inovadoras e influenciaram uma geração de diretores que vieram anos depois, como Woody Allen e Quentin Tarantino. Na verdade, é quase impossível assistir hoje um filme que se proponha a ser mais artístico e com uma marca autoral do diretor que não se apoie em aspectos desenvolvidos na Nouvelle Vague.

Em "Acossado", o foco maior é o desenvolvimento do relacionamento incomum de Patricia e Michel e os diálogos cheios de questionamentos filosóficos e propostas de reflexão. Se você gosta de refletir sobre as coisas sob um clima de forte realismo, a Nouvelle Vague é para você.

Por fim, destaco a espetacular trilha sonora de jazz dos anos 60 de "Acossado". As mesmas notas são utilizadas por quase todo o filme, mas com provocações e com variações diferentes. A trilha tem uma espinha dorsal bem definida e possibilita que Godard brinque bastante com suas mudanças. Talvez tenha sido isso o que eu mais exalto desse filme, a fluidez que sua trilha sonora imprime. É quase que refrescante.

Sendo assim, "Acossado" é um filme que merece ser visto sem pressa, com a tranquilidade necessária para apreciar o orgulho que os franceses têm de sua própria Cultura e a vontade que têm de influenciar o mundo estando em uma posição vanguardista.

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