Glass

Glass ★★★★

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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A mongolada do autorismo vulgar, quando saiu o trailer do Split, arvorou-se a falar que aquele seria o Raising Cain do Shyamalan.

Erraram, como erram com tudo, como passaram dez anos errando sobre o cinema em geral (tanto o "arthouse" quanto o bom cinema espetacular, que eles nunca conseguiram entender e só fizeram berrar a incompreensão patente por uma década em textos sumariamente irrelevantes, ainda mais quando se considera que é o espetáculo o que tomam como indício de vulgaridade), inclusive na avaliação que fizeram do Shyamalan (a do último autor romântico, da crença, quando na realidade é um arqui-cineasta romanesco, do prazer da fabricação da ficção - o "as pessoas serão deuses uns para os outros" que sai da boca da médica é uma citação direta de René Girard).

Erraram, de novo, ao não compararem o filme do Shyamalan que merece ser comparado ao De Palma: a meia hora final do Glass, digna da meia hora final de Blow Out e de Carlito's Way, e mais particularmente o plano final, depalmiano pra caralho, a estação de trem, as pessoas presas aos celulares, a grua recuando com fluidez mas ao mesmo tempo com a TRAÇÃO, o efeito do peso das coisas sobre um chão (as pessoas sentadas, esperando os seus trens), essa tração que é o que prende o nosso olhar naquelas pessoas.

Erraram, mais uma vez, ao não dizerem que neste filme o herói, se herói há, é o mr. Glass (dãããã, por isso o título), e que o filme é sobre a sua redenção, isto é, a libertação pelo sacrifício (e o Cartaxo apontou muito bem isso: Glass é aqui uma personagem romanesca fabulosa, fingindo o tempo inteiro, pensando coisas que aos poucos vamos conhecendo, até entendermos a extensão da ação dele e a forma como ele próprio se encaixa nela, com a cena sublime de despedida da mãe como o ponto alto dessa trajetória). Tem nada de "tudo é política", de identitarismo afirmativo contrabandeado para donzelas do subtexto não, lamento.

Erraram, como se não bastasse, ao não mencionarem a mecânica básica do filme: toda a trajetória do Glass, a do vilão que para se redimir precisa se superar no seu masterminding para conduzir-se a um gesto heroico final, existe para dissolver a própria noção de heróis e vilões, como a Valeska me chamou a atenção (ele mata o enfermeiro, o heroísmo de Dunn quase leva uma das meninas reféns à morte etc.); e a personagem da médica, que acredita estar fazendo o bem e é diretamente responsável pela morte dos três (De Palma de novo), não está 100% errada na avaliação que motiva as suas ações (por isso o seu grito ao final ecoa uma verdade, algo completamente inexistente, por exemplo, em qualquer ação desempenhada pela personagem do crítico de cinema de Lady in the Water), o que apenas reforça essa dissolução. Que o filme faça tudo isso conferindo à narrativa uma dimensão mítica e trágica, com uma nota amarga no final dessa história, não é a última nem a única confirmação da sua construção dialética.

Erraram, principalmente, em não dizer que este é o T2 do Shyamalan.

Acertaram em uma coisa apenas: é um filmaço. Mas é um filmaço nos termos do Shyamalan, ou seja: o espetáculo como abrigo (o asilo aqui, a vila no filme homônimo) do que há de mais sofisticado e elegante na construção ficcional e no ato de criação artística.

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