Dragged Across Concrete ★★★★½

Basicamente o FIRST REFORMED do Zahler.

O desejo do diretor por uma relação crua e material com o mundo, bastante evidente nos seus trabalhos anteriores, se converte em um rigor maníaco. Se antes o cara integrava os seus temas B na sua abordagem (a decupagem espontânea e bem mais instável do Brawl in Cell Block 99, por exemplo), agora existe uma distância muito clara entre o tema a articulação formal.

É como se ele partisse do interesse físico que os filmes anteriores evidenciam e desse um passo pra trás no sentido de se focar na ação essencial de cada coisa, tornando os gestos ainda mais brutais e transparentes justamente por atingir uma natureza mais minuciosa. Não sei nem se dá pra chamar de minimalismo. Porque não é uma questão de economia, mas de dispor tudo de igual pra igual.

É um filme policial mizoguchiano nesse sentido: a câmera nunca se abala. Existe uma imprevisibilidade nos acontecimentos, inevitavelmente uma tragédia implícita em tudo, enquanto a precisão das cenas permanece a mesma. O que acaba nivelando muito bem todas as situações e personagens.

Mesmo a relação das sequências como pequenos núcleos independentes lembra o Mizoguchi. Cada sequência possui uma força autônoma e uma motivação dramática que vale dela mesma: da primeira cena, que mais parece um pesadelo que nunca aconteceu, ao destaque pra pequena história da Jennifer Carpenter (só aquela cena no corredor dela com o filho já é melhor que todos os filmes lançados no ano que eu assisti).

Ele assume uma uniformidade nas aproximações que não julga, mas testemunha objetivamente o que está na sua frente. Seja o grotesco ou não. Toda ação humana é disposta pelo que ela é. Claro que os personagens carregam uma moral implícita. E mesmo quando o filme tenta justificar as suas ações (como as motivações do personagem do Mel Gibson) dá pra sacar que o cara mal se questiona. Mas a expressão do mundo como um todo (e não de ninguém em específico) - a sua, por dizer, evidência - é o que move o movimento ideológico do filme. Coisa que remete, diretamente, ao último trabalho do Schrader.

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