Day for Night

Day for Night ★★★★★

Foi a minha primeira oportunidade assistindo Truffaut, e que experiência gostosa! É um dos maiores filmes sobre filmes já feitos e uma carta de amor ao cinema. A obra escancara o quanto a arte reflete em nossa vida pessoal e vice-versa.


O longa acompanha a produção de “Je vous présente Paméla”, o mais novo filme de Ferrand, um renomado diretor francês – interpretado pelo próprio Truffaut – e todas as intrigas e tragédias que surgem durante as 7 semanas de gravação. A jogada mais ousada e genial talvez resida no fato de que nenhuma dessas pequenas tramas que constroem a narrativa parecem ter tanto desenvolvimento. A sensação que passa é de que somos membros daquela equipe e, assim como todos os outros, apenas parte de algo muito maior que nós mesmos. As personalidades arquetípicas e distintas de cada personagem satirizam os próprios integrantes da classe artística ao mesmo tempo que também os exalta. Truffaut, como se tomasse por empréstimo o corpo de seu personagem, afirma que “a vida pessoal de ninguém funciona perfeitamente. Isso só acontece no cinema. Sem engarrafamentos, sem períodos mortos. Os filmes passam como trens à noite. E pessoas como você e eu só ficam felizes no nosso trabalho”, como se celebrasse e condenasse o fazer fílmico.


Em Noite Americana, Truffaut parece não levar o próprio cinema a sério, de forma que os inúmeros temas abordados pela obra – como traição, assédio da imprensa, preocupação com a própria imagem, dentre outros – nos parecem fúteis. É como se constantemente fôssemos lembrados de que tudo aquilo que vemos em um filme não é a realidade em si, mas sim fragmentos dela que são moldados para encaixar em uma obra fictícia.
Pequenos detalhes como a vela com uma lâmpada acoplada, a espuma simulando a neve, os tiros falsos e a noite americana – nesse caso, a técnica de filmagem – criam uma imersão dentro do set de filmagens sem igual. Atores e atrizes errando o texto e ficando ansiosos funcionam perfeitamente para quebrar a linha narrativa. Assim como os flashbacks de Ferrand, que embora me pareçam repetitivos, quebram expectativas e expandem o universo da obra.


Noite Americana é um importante filme, que trata o cinema com igual importância. A fala que sintetiza tudo o que a obra pretende passar talvez seja: ““Eu largaria um homem por um filme, mas nunca largaria um filme por um homem”.

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